Bem Estar

Mamografia pelo SUS: quando começar e como marcar

Guia prático do rastreamento de mama na rede pública: a faixa de idade, o intervalo entre exames, o caminho pela UBS e o que fazer quando o laudo assusta.

A mamografia pelo SUS é o exame que mais cedo encontra o câncer de mama — o tumor mais incidente entre as mulheres brasileiras. Mas ela só funciona como rastreamento quando é feita na idade certa e no intervalo certo. É aí que mora a confusão.

O câncer de mama responde por 30,0% dos casos entre as mulheres, segundo a Estimativa 2026–2028 do INCA. No Brasil inteiro, o INCA estima 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio, ou 518 mil quando ficam de fora os tumores de pele não melanoma.

Resumo em uma linha: o rastreamento de mama no SUS tem faixa de idade e intervalo definidos, é pedido na UBS e não depende de sintoma — e o autoexame não substitui a mamografia.

Quando começar a mamografia pelo SUS, e de quanto em quanto tempo

Esta é a parte que mais gera dúvida, e é onde vale ser exato: o rastreamento de mama tem faixa etária de início e periodicidade definidas em recomendação oficial. O Ministério da Saúde recomenda a mamografia de rastreamento para mulheres na faixa de 50 a 69 anos, a cada dois anos. É a recomendação do INCA, mantida desde 2004 e reafirmada em posicionamento oficial de 2025, alinhada a organismos como a OMS e a IARC.

Rastreamento é diferente de diagnóstico. Rastreamento é o exame feito em quem não tem sintoma nenhum, para achar lesão pequena, antes de virar queixa. Diagnóstico é a investigação de quem chegou com nódulo, dor, secreção ou alteração na pele.

Quem tem sintoma não entra na fila do rastreamento nem espera a idade da recomendação: procura a UBS e investiga na hora.

O que muda com história familiar

História familiar pesa no câncer de mama. Ter mãe, irmã ou filha com a doença aumenta o risco, e alguns casos exigem acompanhamento diferente e mais cedo.

Na prática, o que a pessoa pode fazer é simples: leve essa informação para a consulta. Diga quantas pessoas da família tiveram câncer de mama, com que idade e de que lado da família. Isso muda a conduta, e o profissional só sabe se você contar.

Também é comum haver confusão entre câncer de mama e câncer do colo do útero, que são coisas diferentes e têm exames diferentes. O câncer de mama é o mais incidente entre as mulheres (30,0%); o de colo do útero aparece em 7,4%. O rastreamento do colo do útero é feito pelo Papanicolau e pelo teste de DNA-HPV, não pela mamografia.

O que a mamografia vê, o que ela não vê e por que o exame clínico continua importante

A mamografia é um raio-X da mama. Ela mostra nódulos, agrupamentos de microcalcificações (pontinhos de cálcio que podem indicar alteração) e mudanças na arquitetura do tecido.

Ela não é um exame perfeito, e ninguém deveria tratar como se fosse.

O que a mamografia vê bem: lesões pequenas que ainda não são palpáveis, muitas vezes a razão de o rastreamento existir.

O que ela não vê: não enxerga tudo. Em mamas muito densas, o tecido glandular dificulta a leitura, e existe indicação de complementação com outro exame.

Ela também não substitui a mão treinada. O exame clínico das mamas — feito por profissional de saúde, na consulta — continua valendo, sobretudo para quem está fora da faixa de rastreamento. É o exame clínico que investiga a queixa de quem chegou com nódulo.

Autoexame não substitui a mamografia

Essa é uma das confusões mais comuns e das mais caras.

O autoexame ajuda a pessoa a conhecer o próprio corpo e a perceber mudanças. Isso tem valor. Mas ele não é método de rastreamento e não substitui a mamografia na faixa recomendada.

Quem faz autoexame direitinho, todo mês, e nunca fez mamografia não está protegida. Quem nunca fez autoexame e faz mamografia no intervalo recomendado está fazendo a parte que mais reduz mortalidade.

As duas coisas convivem: conhecer o corpo e fazer o exame na idade certa.

Como marcar a mamografia pelo SUS

O caminho começa na atenção básica e não exige plano de saúde, pagamento nem pedido de amigo médico.

  1. Vá à UBS ou à ESF do seu bairro. Leve documento com foto, cartão do SUS e a caderneta da mulher, se tiver.
  2. Peça o acolhimento. Diga que quer fazer o rastreamento de mama e informe sua idade. Se tem história familiar, conte.
  3. A equipe faz o pedido. O profissional avalia, examina e emite a solicitação da mamografia, registrando no prontuário.
  4. O pedido vai para a regulação. A vaga do exame é marcada pelo município, que administra a agenda dos serviços de imagem.
  5. Você recebe a data e o local. Anote e guarde o comprovante com o número de protocolo.
  6. Faça o exame na data marcada. Leve o pedido e o documento. Sem sutiã ou com peça fácil de tirar ajuda, mas não é exigência.
  7. Volte para buscar o resultado e leve o laudo à UBS. O laudo não pode ficar na gaveta: ele precisa ser lido pela equipe que acompanha você.

Existem mutirões e campanhas de mamografia em vários municípios, com oferta concentrada em determinados períodos.

Se o seu município não tem mamógrafo, a vaga costuma vir por regulação em outro serviço, às vezes em outra cidade. Isso pode envolver Tratamento Fora do Domicílio (TFD) e ajuda de custo, mas a regra varia por estado e município. Procure a secretaria municipal de saúde e o setor de TFD/regulação.

Para organizar o acesso a consultas e exames especializados na rede pública, o Ministério da Saúde mantém o programa Agora Tem Especialistas. Em agosto de 2026, o ministério anunciou a contratação de hospitais privados para realizar 600 mil cirurgias e exames para pacientes do SUS, com o objetivo de reduzir filas.

Do resultado ao tratamento: como ler o laudo sem pânico

O laudo da mamografia costuma trazer uma classificação. A mais usada é o BI-RADS, que vai de 0 a 6 e resume o grau de suspeita do que foi visto.

A leitura prática é esta: BI-RADS baixo costuma significar exame normal ou achado benigno, com retorno no intervalo de rotina. BI-RADS mais alto indica necessidade de investigação — quase sempre nova imagem e, em alguns casos, biópsia.

Biopsiar não é o mesmo que ter câncer. É o passo que confirma ou descarta. Quando a biópsia é necessária, ela entra no caminho dos exames de diagnóstico, com prazo próprio. Se o resultado não sai, o caminho é cobrar: anotar protocolo, voltar à UBS e registrar reclamação na Ouvidoria Nacional do SUS — 136 ou procurar a Defensoria Pública.

Depois do laudo que confirma, o acompanhamento passa pela mastologia, a especialidade que cuida da mama. O acesso é pela regulação municipal, a partir do encaminhamento da UBS. Para o primeiro tratamento, vale o prazo da Lei nº 12.732/2012, a Lei dos 60 dias: até 60 dias contados do diagnóstico com laudo patológico, podendo ser menor quando houver indicação clínica.

Nódulo na mama: o que é mais comum

Achar um nódulo na mama assusta, e o susto faz a pessoa concluir o pior antes de qualquer exame. Vale saber que a maior parte dos nódulos mamários não é câncer: muitos são cistos, fibroadenomas e outras alterações benignas.

O que não dá para fazer é decidir em casa, pelo tato ou pela internet. Quem sente nódulo, nota secreção no mamilo, retração da pele, alteração no mamilo ou dor persistente procura a UBS e investiga. Pode ser bobagem. Mas quem decide isso é a avaliação profissional, não o medo.

Homens também têm câncer de mama

Câncer de mama não é exclusividade de mulher. Homens têm tecido mamário e podem ter a doença, ainda que seja bem mais raro.

O sinal costuma aparecer como nódulo atrás do mamilo, retração ou secreção. Como quase ninguém associa câncer de mama a homem, a procura demora — e o atraso é o mesmo problema de sempre, agora agravado pelo preconceito.

Para o homem, o caminho é o mesmo: UBS, avaliação clínica, exame de imagem quando indicado e investigação se necessário. Não existe campanha de rastreamento de mama para homens, e nem deveria existir. Existe atenção ao sinal.

Reconstrução mamária e acompanhamento: um direito

Quem passa por mastectomia — a retirada da mama — tem direito à cirurgia de reconstrução mamária pelo SUS, garantida pela Lei nº 12.802/2013.

Esse direito precisa ser dito em voz alta na consulta. Pergunte sobre a possibilidade de reconstrução, sobre o momento adequado e sobre onde ela é feita na sua região. O acompanhamento depois do tratamento também é parte do cuidado, e não um extra.

Vale lembrar que os cuidados paliativos são direito e política pública no SUS, instituídos pela Política Nacional de Cuidados Paliativos (Portaria GM/MS nº 3.681, de 7 de maio de 2024), atualizada pelas portarias GM/MS nº 10.181, de 26 de janeiro de 2026, e SAES/MS nº 4.288, de 22 de junho de 2026. Cuidado paliativo é cuidado, não desistência.

Esta reportagem é informação de serviço e não substitui avaliação de profissional de saúde. Faixa de idade, intervalo entre exames e indicação de cada imagem são decisões clínicas, tomadas caso a caso por quem examina você.

Onde buscar ajuda

  • UBS ou ESF do seu bairro — porta de entrada: acolhimento, exame clínico, pedido da mamografia e leitura do laudo.
  • Secretaria municipal de saúde, setor de regulação e TFD — agenda de exames, vaga em outro município, transporte sanitário e ajuda de custo. A regra varia por município.
  • Ouvidoria Nacional do SUS — 136 — para registrar demora de exame, de laudo ou de consulta com especialista.
  • Conselho municipal de saúde — para cobrar a fila da mamografia e a oferta no território.
  • Defensoria Pública do seu estado — atendimento gratuito para cobrar exame e reconstrução mamária.
  • Ministério Público estadual, promotoria de saúde — quando a via administrativa não resolve.
  • Disque 100 — apenas para violações de direitos humanos.

Perguntas frequentes

Tenho menos de 50 anos, posso fazer pelo SUS? Pode, e deve, se tiver sintoma ou história familiar que justifique. Fora da faixa de rastreamento e sem queixa, o exame é decidido pela avaliação clínica, não por pedido automático. Leve sua história familiar para a consulta.

Mamografia dói? O exame comprime a mama por alguns segundos para melhorar a imagem, e isso incomoda ou dói em algumas pessoas. A compressão dura pouco, e o desconforto não é motivo para deixar de fazer o exame. Avise a técnica se a dor for intensa.

Autoexame substitui a mamografia? Não. O autoexame ajuda a conhecer o próprio corpo e a perceber mudanças, mas não é método de rastreamento. A mamografia, na faixa recomendada, é o exame que encontra lesões antes de serem palpáveis.

Estou na fila há meses, o que posso fazer? Volte à UBS com o comprovante do pedido e o número de protocolo. Peça que a equipe registre a demora no prontuário. Registre reclamação na Ouvidoria Nacional do SUS, pelo 136. Leve o caso ao conselho municipal de saúde e, se nada andar, procure a Defensoria Pública.

Fontes

POR

Joildo Santos

Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

Ver perfil e todas as colunas →