Formação política e mobilização social nas periferias do DF
Durante todo o ano de 2025, o projeto Grito das Periferias consolidou-se como uma relevante iniciativa de formação política, mobilização social e incidência institucional protagonizada por adolescentes e jovens periféricos do Distrito Federal (DF).
Com o objetivo de formar e capacitar jovens de 16 a 29 anos das regiões de Ceilândia, Estrutural e Itapoã, o projeto trabalhou temas como orçamento público, direitos humanos e direito à cidade sob uma perspectiva interseccional de raça e gênero, incentivando a participação direta no orçamento público do DF.
Oficinas temáticas e metodologias populares
Segundo Thallita Oliveira, assessora política do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), foram realizadas 13 oficinas em cada região, divididas em cinco eixos temáticos:
- Raça, gênero e interseccionalidade
- Direitos humanos e políticas públicas
- Direito à cidade e à cultura
- Orçamento público e direitos humanos
- Metodologia de pesquisa em educação popular
As atividades buscaram articular teoria e prática, partindo das vivências dos territórios e das realidades locais dos jovens. Além disso, o projeto promoveu uma oficina de produção cultural, com 30 participantes (10 por região), e cinco oficinas de educomunicação, garantindo o protagonismo juvenil também na comunicação e na cobertura das ações coletivas.
Toda a divulgação, registro e produção dos eventos foi realizada pelos próprios adolescentes e jovens envolvidos.
Cultura e política nos territórios
Entre os destaques de 2025 estão as três ações político-culturais realizadas em diferentes regiões:
- Sábado de Quebrada, no Itapoã
- Passado do Amanhã, na Ceilândia
- Sustenta Baile, na Estrutural
Cada evento reuniu mais de 100 pessoas e combinou cultura, lazer e debate político sobre o direito à cidade, fortalecendo o vínculo com as comunidades locais e ampliando o alcance das discussões.
Juventudes em ação e incidência política
O processo formativo culminou em importantes momentos de incidência política, como:
- Encontros de elaboração de propostas;
- Uma Audiência Pública na Câmara Legislativa do DF (CLDF), com mais de 100 pessoas;
- Um Seminário, que reuniu cerca de 90 adolescentes e jovens.
No total, o projeto beneficiou 94 jovens, sendo 50 mulheres (4 trans), 36 homens (1 trans), 6 pessoas não binárias e 2 não identificadas. Do ponto de vista racial, participaram 50 pessoas pretas, 31 pardas, 12 brancas e 1 não identificada.
Transformação e protagonismo juvenil
Os resultados foram expressivos: os participantes relataram sentir-se mais confiantes para pautar demandas, ocupar espaços de decisão e afirmar suas identidades.
Aline Lopes de Souza, do Itapoã, destacou: “O Grito das Periferias mostrou que a nossa voz tem valor. O projeto foi um espaço de formação, escuta e fortalecimento coletivo, que me ajudou a compreender meus direitos e transformar a história do meu território.”
O tema do orçamento público, inicialmente desafiador, revelou-se um dos mais transformadores, especialmente pela metodologia da educação popular, que aproximou conteúdos complexos das realidades locais.
Mobilização e incidência contínua
O fortalecimento político também se refletiu em mobilizações autônomas, como a atuação de jovens contra o projeto de construção de uma termelétrica em Samambaia.
Para Raquel Adla Freitas de Aguiar, da Ceilândia, o projeto aproximou a política do cotidiano: “Foi um espaço de escuta, afeto e responsabilidade social, que fortaleceu minha confiança e o sentimento de pertencimento à periferia.”
Carta-Manifesto e compromisso político
As propostas elaboradas foram apresentadas na Audiência Pública da CLDF, resultando no compromisso de criação de um grupo de trabalho com as juventudes para dialogar com o Governo do DF e encaminhar as demandas.
No Seminário Grito das Periferias, as pautas foram aprofundadas e consolidadas na Carta-Manifesto da Rede de Juventudes e Adolescências (JUÁ) de Olho no Orçamento Público: Por um Distrito Federal que Garanta Direitos, assinada por 65 dos 95 participantes. O documento reafirma o papel das juventudes periféricas como sujeitos políticos, denunciando desigualdades e apresentando propostas com metas, indicadores e prazos.
Ronnalty Cordeiro Batista, da Estrutural, resumiu o impacto do projeto: “O Grito das Periferias rompe a lógica que trata a periferia como número e coloca nossas vozes no centro.”
Parcerias locais e compromisso institucional
O projeto foi fortalecido por parcerias com Jovem de Expressão (Ceilândia), Coletivo da Cidade (Estrutural) e Casa Batukenjé (Itapoã), que garantiram o enraizamento territorial e a escuta qualificada.
Realizado com apoio da Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania do DF (Sejus), por meio do Termo de Fomento nº 18/2024, o Grito das Periferias reafirma o compromisso do Inesc com a formação política, a defesa dos direitos humanos e o fortalecimento das juventudes periféricas como agentes centrais na construção de políticas públicas mais justas e democráticas.