Paraisópolis, São Paulo quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Crianças

Ex-detento ensina crianças da periferia do DF a andar de skate para afastá-los do crime

Ex-detento ensina crianças da periferia do DF a andar de skate para afastá-los do crime
Foto: Divulgação Pro Radical Skate

Todas as tardes, de segunda a sexta, um grupo de crianças se reúne pelas ruas de Taguatinga (DF) para aprender a andar de skate. São apenas três pranchas divididas entre cinco ou sete pequenos alunos, liderados por Robson Diego de Menezes Oliveira, de 43 anos, um homem que entende como poucos o que significa se levantar depois de cair. Ele criou, em 2019, o projeto Brasil Skate School, sem CNPJ, patrocínio ou apoio público, com o objetivo de oferecer às crianças de comunidades vulneráveis o que ele não teve na infância: uma chance diferente.

Robson cresceu em um bairro marcado pela criminalidade e pela ausência materna. Ainda jovem, viu no skate uma forma de expressão e liberdade que o afastou das drogas. Contudo, as dificuldades financeiras o levaram, mais tarde, a se envolver com o crime. Após sucessivas quedas, incluindo assaltos e prisões, ele acabou detido no presídio da Papuda, em Brasília. Foi lá, entre leituras e conversas com religiosos, que começou a repensar sua trajetória e sonhar com uma vida reconstruída sobre o mesmo asfalto que antes o via fugir.

Em 2018, logo após ser solto, Robson foi convidado a coordenar o projeto Pro Radical Skate, que ensinava gratuitamente crianças de comunidades próximas. Quando o financiamento acabou, ele decidiu continuar voluntariamente, mobilizando mães e alunos com sua perseverança. O grupo cresceu rápido, de seis voluntários para mais de cinquenta pessoas, e chegou a atingir oito cidades do Distrito Federal. Mas, com a pandemia de 2020, o isolamento social desfez o esforço coletivo e o levou novamente a uma fase de recaída, marcada pelo retorno ao vício e por uma nova prisão em 2022.

Após um ano e quatro meses, Robson deixou o cárcere transformado. Em 2024, recomeçou o projeto em Taguatinga, agora com mais maturidade e consciência de propósito. Com o apoio de amigos e poucos doadores, voltou às aulas diárias, oferecendo skate, afeto e disciplina para crianças que poderiam estar em outros caminhos. Um desses amigos é Hugo, de 46 anos, deficiente físico, que conheceu Robson ao vê-lo ensinar na rua e passou a apoiar o projeto.

Mesmo diante da falta de recursos, Robson insiste. Recomeçou com apenas três skates, simbolizando a resistência que o move. “Eu faço por eles o que gostaria que tivessem feito por mim”, define. Ele sabe que o desafio não é apenas financeiro, mas também emocional e institucional — sobreviver sem um CNPJ, longe das políticas públicas, e ainda assim manter vivo o sonho coletivo de mudar vidas por meio do esporte.

Hoje, o Brasil Skate School segue como exemplo de reconstrução e solidariedade. Robson acredita que o skate é mais do que um esporte: é uma metáfora de vida. Nas quedas e nas retomadas, ele ensina que vencer é continuar tentando, e que a felicidade está em despertar, dentro de si e dos outros, a vontade de seguir em frente, independente da validação de quem observa.

Como você se sente sobre isso?
Joildo Santos
ESCRITO POR

Joildo Santos

Comunicador e fundador do jornal Espaço do Povo, em Paraisópolis, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras. CEO da CRIA S/A e presidente do Instituto Crias, é referência em comunicação de impacto social, conectando marcas, organizações e empreendedores da periferia para gerar oportunidades, renda e novos imaginários sobre as comunidades.

Ver todos os artigos de Joildo Santos →