Vera Lúcia Jesus Bispo Ferreira, 59 anos, montou sua primeira turma de alfabetização na garagem da casa da família, no bairro de Santa Cruz, em Salvador. Trinta e quatro anos depois, a mesma casa abriga a Escolinha Comunitária Santa Cruz, que já passou mais de 800 crianças e nunca cobrou mensalidade.
O trabalho começou em 1990, quando vizinhos pediram ajuda para alfabetizar filhos que não tinham vaga na escola pública mais próxima. Vera reuniu cadeiras emprestadas, pintou lousa no muro e passou a dar aulas de manhã antes de sair para o trabalho como merendeira. A demanda cresceu; ela abriu turmas noturnas para adultos e, nos anos 2000, criou oficinas de informática com computadores doados.
Hoje, além das aulas de reforço para crianças do 1º ao 5º ano, a educadora oferece qualificação profissional para jovens a partir de 14 anos: auxiliar administrativo, corte e costura e panificação. O curso dura quatro meses e inclui prática em microempresas do bairro. Dos 120 formandos em 2023, 78 estão empregados ou empreendendo, segundo cadastro que ela mantém em caderno de campo.
O espaço funciona de segunda a sexta, das 7h às 17h, com apoio de três ex-alunas que hoje são professoras voluntárias. Material escolar, lanche e uniforme são bancados por vaquinhas on-line e doações de papelarias locais. Vera também negocia gratuidade no SENAC para alunos que terminam o ensino médio.
A renda da família vem do salário de marido e da venda de marmitas, mas a prioridade é manter as portas abertas. “Minha missão é ver o menino da esquina virar o técnico que vai consertar meu celular”, diz. A próxima meta é transformar a escolinha em associação formal para receber equipamentos públicos e ampliar a turma de panificação, única que hoje tem fila de espera.