Paraisópolis, São Paulo quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Cultura

Do gueto ao glamour: como o cinema de periferia conquistou o mundo

Enquanto a crítica celebrava Cidade de Deus por retratar a violência das favelas, outra coisa acontecia nos territórios periféricos: gente comum pegando câmeras para contar suas próprias histórias. Hoje, essa produção, que nasceu nos anos 90 como vídeo comunitário caseiro, ocupa seções prestigiadas em Berlim, Locarno e festivais de documentário na França.

Wilq Vicente, pesquisador e autor do livro Cinema de Periferia (Funilaria, 368 págs., R$ 68), documenta essa trajetória. “Para muitos realizadores, filmar é um gesto de liberdade e afirmação cultural”, resume ele. O que começou como denúncia imediata, ônibus precários, violência policial, evoluiu para uma estética própria, calcada no rap, no grafite e na literatura de autores como Ferréz.

Das ruas para a tela grande

A virada começou quando as câmeras ficaram menores e os equipamentos, mais acessíveis. Era o tempo dos “vídeos comunitários”: gravações de baixíssimo orçamento, feitas por quem vivia o problema, sem pretensão técnica, mas com urgência política. O próprio termo “periferia” foi sendo ressignificado, de estigma, passou a ser motivo de orgulho.

Nos anos 2000, o movimento ganhou corpo. Editais públicos, cursos de formação e os “pontos de cultura” criaram infraestrutura. Surgiram as primeiras produtoras coletivas, como a Cinco da Norte, de Ceilândia (DF), comandada por Adirley Queirós. Ex-jogador de futebol, Queirós estreou com o documentário Rap, o Canto da Ceilândia (2005) e construiu uma trilogia distópica que levou o cinema periférico a Locarno e Berlim, incluindo Branco Sai, Preto Fica (2014) e Mato Seco em Chamas (2022), este último premiado como “radical e apocalíptico” na França.

O afeto como arma

A nova geração ampliou o repertório. Se antes a urgência era mostrar a violência, hoje o direito é retratar também o cotidiano, a família, os pequenos dilemas. André Novais Oliveira e a Filmes de Plástico, de Contagem (MG), ilustram essa mudança: Marte Um (2022), indicado ao Oscar; Temporada (2018), sobre uma agente de combate à dengue; e agora Se Eu Fosse Vivo… Vivia, recente destaque no Festival de Berlim com a estreia da escritora Conceição Evaristo como atriz.

“A sinceridade é o fator principal”, diz Oliveira. “Filmamos o que vivemos ou poderíamos viver naquele lugar.” O resultado é uma produção que fala de solidão, saúde mental, relações lésbicas sem julgamento, sonhos de ser astronauta, tudo isso sem perder de vista o racismo estrutural e a pobreza, mas ampliando o olhar.

Hoje, cineastas de Ceilândia, Contagem e Cachoeira (BA), onde a Rosza Filmes produziu Café com Canela, movimentam a cena com filmes financiados por editais e exibidos em canais públicos. A gravação caseira virou indústria cultural. E a periferia, finalmente, não é só cenário de violência: é palco de histórias complexas, contadas por quem as vive.

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Joildo Santos
ESCRITO POR

Joildo Santos

Comunicador e fundador do jornal Espaço do Povo, em Paraisópolis, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras. CEO da CRIA S/A e presidente do Instituto Crias, é referência em comunicação de impacto social, conectando marcas, organizações e empreendedores da periferia para gerar oportunidades, renda e novos imaginários sobre as comunidades.

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