No Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, estudos mostram o crescimento da profissão no país e o desafio de garantir atendimento médico onde a população mais precisa.
O Brasil celebra o Dia do Médico neste domingo (18) com uma transformação importante na profissão. O número de médicos aumentou, as mulheres passaram a ocupar uma parcela maior dos postos de trabalho e novas faculdades ampliaram a formação de profissionais. Mesmo assim, a distribuição desigual desses trabalhadores continua sendo um dos desafios para quem depende de atendimento de saúde.
A Demografia Médica no Brasil 2025, elaborada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Ministério da Saúde e a Associação Médica Brasileira (AMB), projetou que o país chegaria ao fim de 2025 com 635.706 médicos em atividade, o equivalente a 2,98 profissionais por mil habitantes.
O crescimento não significa que todos os brasileiros tenham as mesmas condições de acesso a uma consulta. A concentração de médicos em determinadas cidades, bairros e serviços privados ajuda a explicar por que a ampliação do número de profissionais não elimina, automaticamente, a dificuldade para conseguir atendimento.
Quantos médicos existem no Brasil?
A estimativa de 635,7 mil médicos para o fim de 2025 representa uma das maiores expansões da força de trabalho médica brasileira.
O mesmo estudo indicou outra mudança histórica: as mulheres alcançariam 50,9% dos médicos em atividade, tornando-se maioria pela primeira vez.
Essa transformação acompanha a mudança no perfil dos estudantes de medicina e tende a influenciar a composição das equipes de saúde nas próximas décadas.
Mas existe uma diferença importante entre ter mais médicos registrados e garantir atendimento disponível para toda a população.
Um profissional pode trabalhar em vários estabelecimentos, dividir a jornada entre serviços públicos e privados ou atuar em uma região que já concentra grande quantidade de especialistas. Por isso, a proporção de médicos por habitante não equivale à oferta efetiva de consultas pelo SUS.
São Paulo tem muitos médicos, mas eles não estão igualmente distribuídos
A desigualdade aparece até no estado mais populoso do Brasil.
Segundo a Demografia Médica do Estado de São Paulo 2026, o território paulista terminou 2025 com aproximadamente 197 mil médicos, alcançando a média de 4,28 profissionais por mil habitantes.
Na capital, a concentração era ainda maior: 6,25 médicos por mil habitantes.
Enquanto a cidade de São Paulo reunia 25,8% da população estadual, concentrava 37,7% dos médicos. Já nos municípios do interior com menos de 100 mil habitantes, a proporção era de 2,11 profissionais por mil moradores.
Os números mostram que o endereço influencia a distribuição dos recursos humanos em saúde.
Entretanto, mesmo a média elevada da capital não revela como esses profissionais estão distribuídos entre bairros, hospitais particulares, unidades públicas e diferentes especialidades. Para compreender o acesso da população periférica, é necessário observar também a disponibilidade de consultas, a distância até os serviços e o tempo de espera.
Por que é difícil conseguir uma consulta mesmo com mais médicos?
O atendimento depende de uma estrutura maior que a presença de um profissional.
Uma consulta especializada pode exigir encaminhamento pela atenção básica, exames, equipamentos, sistemas de regulação e vagas disponíveis na rede de referência.
Quando uma dessas etapas falha, o paciente pode enfrentar sucessivos deslocamentos ou esperar mais tempo até concluir a investigação de um problema de saúde.
A dificuldade também envolve a distribuição de especialistas.
O levantamento nacional da USP identificou forte concentração de profissionais especializados na rede privada. Isso torna necessário avaliar não apenas quantos médicos o país forma, mas em quais regiões, estabelecimentos e modalidades de atendimento eles trabalham.
Para a população, a diferença é concreta: ter médicos na cidade não significa necessariamente encontrar uma consulta disponível perto de casa.
O papel dos médicos nas comunidades e na prevenção
Nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), os médicos atuam no acompanhamento de doenças crônicas, no pré-natal, na saúde infantil, na investigação de sintomas e na prevenção de complicações.
A continuidade do atendimento permite conhecer o histórico de saúde do paciente, acompanhar resultados de exames e identificar mudanças que poderiam passar despercebidas em consultas isoladas.
Essa relação é especialmente importante para pessoas com hipertensão, diabetes e outras condições que exigem acompanhamento frequente.
O trabalho médico também depende de equipes multiprofissionais. Enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitários, farmacêuticos, psicólogos e outros trabalhadores participam de diferentes etapas do cuidado.
Fortalecer essas equipes, garantir condições de trabalho e ampliar a integração entre a atenção básica e os serviços especializados são medidas essenciais para transformar a presença de profissionais em atendimento efetivo.
Formação médica e qualidade do atendimento entram no debate
O crescimento de cursos e vagas de medicina também trouxe novas discussões sobre a formação profissional.
Não basta ampliar o número de diplomados. A qualidade do ensino, os campos de estágio, a supervisão de estudantes, a residência médica e a preparação para trabalhar em diferentes realidades precisam acompanhar a expansão.
No dia 14 de outubro, o Senado realizou uma sessão especial em homenagem ao Dia do Médico. Entre os assuntos destacados estavam as condições de trabalho, a distribuição desigual de profissionais e a qualidade da formação.
A discussão envolve tanto a segurança dos pacientes quanto a valorização de quem exerce a medicina.
Por que o Dia do Médico é comemorado em 18 de outubro?
No Brasil, a data é celebrada em 18 de outubro em referência a São Lucas, tradicionalmente reconhecido como padroeiro dos médicos.
Além do reconhecimento aos profissionais, a ocasião permite discutir os desafios de uma profissão presente em momentos decisivos da vida, desde o nascimento até os cuidados paliativos.
A expansão da medicina brasileira demonstra a capacidade do país de formar profissionais. O desafio seguinte é fazer com que essa capacidade se traduza em atendimento de qualidade, continuidade do cuidado e acesso para quem vive longe dos principais centros de saúde ou depende exclusivamente da rede pública.