Projeto social cria instrumentos musicais com resíduos plásticos no Pará

 Projeto social cria instrumentos musicais com resíduos plásticos no Pará

Foto: Anderson Jorge

Mais de 5 mil jovens das periferias de Belém já foram beneficiados com aulas de música gratuitas

Tampas de garrafas, pets, galão de água, cabo de vassoura e o que mais tiver pela frente. Esses são alguns dos materiais que Heraldo Santos utiliza na Orquestra Sustentável Percussão da Terra e no Ponto de Cultura Tambores Sustentáveis da Amazônia. Licenciado em Artes Visuais, formado em percussão livre, e pós-graduando em educação musical, o músico é o idealizador do projeto que já atendeu mais de 5 mil jovens e adolescentes.

A história de Heraldo com a música começou ainda na infância; quando menino ele observava as pessoas tocarem instrumentos musicais e ficou curioso para aprender, mas foi deixando para mais tarde.

Já na adolescência, após perder o pai, se viu obrigado a trabalhar para  manter o sustento de sua família. A mãe de Heraldo era apaixonada por música, e gostava muito da cantora Dolores Duran e isso influenciou em seu gosto pessoal. O som ecoava no radinho da casa.  Depois de um tempo, as coisas apertaram e Heraldo precisou se mudar para a casa do tio, que ouvia Altemar Dutra e músicas daquela década de 70. 

Foi somente aos 19 anos, em 1990, que ele decidiu parar de trabalhar com outras coisas e focar toda a sua energia na música e assim, aprendeu a tocar sozinho, apenas observando as pessoas.

Depois de longos anos, idas e vindas à Belém, participações em bandas, foi que Heraldo entendeu sua missão: a de ajudar jovens periféricos através da música. “Eu nunca imaginei que usaria a música como instrumento transformador, principalmente nos bairros”, explica ele.

Na busca por uma forma de unir música e jovens, ele encontrou nos resíduos sólidos como garrafas pet, cabos de vassoura quebrado, tampinhas de refrigerante ou cerveja, a composição perfeita para o trabalho.

“Limpa, trata, passar veneno para não dar cupim”, explica ele sobre o passo a passo do processo.

Heraldo ensina jovens a partir dos 18 anos de regiões periféricas de Belém do Pará a tocarem instrumentos musicais produzidos com materiais plásticos. O projeto já beneficiou mais de 5 mil jovens e adolescentes e atualmente ele atende 600 pessoas. Ele garante que não é só música, mas que ajudar na construção do caráter e cidadania dos jovens também é algo importante para ele.

Heraldo decidiu implementar os projetos nas periferias, pois ele é natural de uma quebrada, do bairro de Sacramenta. De origem humilde, queria fazer algo pelo lugar que morava e assim, foi conquistando mais alunos e migrou para outros bairros periféricos da cidade de Belém do Pará. Atualmente ele dá aulas em seis bairros.

Esses materiais plásticos encontrados em ruas e vielas demoram cerca de 150 anos para se decompor. “A gente vai partir e isso aqui vai continuar lá”, desabafa.

“É algo ruim, porque ele vai se decompor, vai pro lençol freático e libera toxina que é cancerigina”, conta. Outro fato importante para o projeto são os valores, afinal, eles vivem de patrocínio e doações, mas não é sempre que tem dinheiro, sendo assim, utilizar os materiais plásticos além de ajudar o meio ambiente fica mais barato economicamente. “Um par de maracá custa em média de R$ 150 a R$ 200 in natura, se ele cair de uma certa altura pode quebrar. Agora tu acha na rua e pode fazer um instrumento. Essas miçanguinhas que estão dentro, a gente compra de empresas que pensam verde”, explica.

O grupo se apresenta em diversos eventos da cidade de Belém, em simpósios de faculdades e datas comemorativas importantes.

Inspiração

Quatro alunos se apaixonaram tanto pelo trabalho de Heraldo, que decidiram cursar faculdade de música. Heraldo os ajudou e os preparou da melhor forma que pôde; dois já estão se formando.

“É o que eu digo: ‘você quer ser musicista? É comigo. Você quer ser cidadão? Estudar enfermagem? Ótimo. O dia que você quiser voltar pra cá, será bem-vinda” explicou. “Eu amo o que eu faço. Pra mim é o que vale, não é algo por modinha. Eu preciso saber o que to fazendo e eu amo o que faço”, completa.

Viagem para os Estados Unidos

Recentemente, o músico se apresentou nos Estados Unidos, especificamente em Nova York, no Central Park, no evento chamado Pororoca. Ele tocou ao lado de Carlinhos Brown e indígenas brasileiros em uma ação de preservação das terras Amazônicas.

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Jornalista, criadora de conteúdo e escritora. Natural de São João da Boa Vista - SP, atua há mais de cinco anos com comunicação e jornalismo. Já atuou em veículos como Estadao e Diário de SP, onde cobriu entretenimento e cultura.

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