Uma cooperativa de moradores da Zona Sul de São Paulo e do ABC está colocando placas solares nos telhados de casas populares e cortando até 90% da conta de luz de famílias que ganham até dois salários mínimos. O projeto nasceu de um grupo de vizinhos cansados de pagar tarifas altas e agora movimenta 220 imóveis, com fila de espera de mais de dois mil interessados.
O sistema funciona assim: a cooperativa compra e instala os painéis com dinheiro da própria comunidade e de doações. A energia gerada entra na rede da distribuidora e vira créditos que são divididos entre os sócios. Quem não tem estrutura no telhado recebe parte dos créditos de quem tem, garantindo desconto igualitário. O investimento volta para o bolso em até três anos, depois é só economia.
O coordenador do Movimento de Justiça Energética, Jeferson Morais, explica que a ideia surgiu em 2019, quando moradores da Vila Natal, em São Caetano, perceberam que pagavam tarifa cheia enquanto shoppings e indústrias recebiam descontos. “A gente queria mostrar que a favela também pode gerar energia limpa e barata”, diz Morais. Hoje, a cooperativa mantém três usinas solares em terrenos cedidos pela prefeitura e por igrejas.
O impacto no orçamento é imediato. Dona Maria Aparecida, 57, auxiliar de limpeza, viu a conta cair de R$ 180 para R$ 30. “Dava pra comprar remédio, comida, até o gás que tá caro”, conta. A economia média entre os associados é de R$ 150 por mês — valor que, em um ano, equivale a mais de um salário mínimo.
A distribuidora responsável pela região, Enel, confirma que os créditos de energia solar são aceitos desde que haja autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A agência regulamenta o sistema de geração compartilhada desde 2015, mas poucos moradores de periferia conheciam a norma. A cooperativa agora abre oficinas gratuitas para ensinar eletricistas da comunidade a instalar painéis, ampliando o ciclo de renda local.
O próximo passo é levar o modelo para favelas da Zona Leste, onde a taxa de inadimplência de luz chega a 40%. A meta é instalar 1 mil placas até 2026. “Se a conta não pesa, sobra dinheiro pra saúde, educação, até pro lanche dos filhos”, resume Morais.