Paraisópolis, São Paulo terça-feira, 21 de abril de 2026
Comunidade

Repatriação de artefatos africanos avança como reparação pela escravização

A Assembleia Geral da ONU aprovou resolução que reforça a devolução de bens culturais africanos saqueados durante a escravização e o tráfico transatlântico. A medida vincula diretamente a restituição de artefatos, documentos e acervos a processos de reparação histórica. Especialistas afirmam que o ato vai além da posse material e toca a reconstrução de narrativas apagadas por séculos de violência colonial.

Estudos indicam que mais de 90% do patrimônio cultural africano está fora do continente, concentrado em museus da Europa e dos Estados Unidos. A Unesco tem classificado a repatriação não como disputa entre países, mas como direito cultural e forma de justiça histórica. Para a historiadora Esther Silva, do Movimento Negro Evangélico, devolver esses bens é garantir que populações afrodescendentes tenham acesso à própria memória e ao conhecimento sobre suas origens.

No Brasil, a população negra enfrenta dificuldades reais para acessar documentos de sua história, muitos guardados em arquivos no exterior. Consultar esses materiais exige recursos que a maioria não tem. Jamile Coelho, diretora do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), ressalta que museus foram, muitas vezes, espaços de acumulação por meio da violência. Devolver objetos é reverter essa lógica e colocar comunidades negras no centro de suas produções culturais.

Em 2022, a Alemanha devolveu mais de 1.100 Bronzes de Benin à Nigéria. Em 2024, instituições britânicas enviaram 32 peças a Gana por três anos. O Senado francês aprovou lei para facilitar restituições. No Brasil, 666 obras afro-brasileiras retornaram ao Muncab em janeiro, fruto de doação voluntária de colecionadoras norte-americanas. A operação teve apoio da Embaixada dos EUA e financiamento coletivo para transporte.

Essas devoluções indicam mudança gradual nas políticas culturais de países ocidentais. Embora ainda não haja um fluxo contínuo, cada retorno reforça o direito das comunidades à memória, à dignidade e ao controle de seu legado. O impacto mais profundo pode ser a transformação de como a história é contada — e por quem.

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Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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