Paraisópolis, São Paulo quinta-feira, 3 de setembro de 2026
✍️ OPINIÃO Este é um artigo de opinião. As ideias expressas são de responsabilidade do autor.

Educação Midiática 

judith
🎤 Convidado
💚 Colaborador Voluntário

Judith Brito

É mãe, avó e executiva do Grupo Folha e do Grupo UOL.

📅 22 jan 2023 ⏱️ 5 min de leitura

Antes do surgimento da internet, era relativamente restrito o número de produtores e disseminadores de notícias e informações (principalmente os jornais e emissoras de rádio e TV aberta). Veículos sérios (inclusive na internet) selecionavam e selecionam os conteúdos divulgados, já que são responsáveis pelo que produzem e tornam público.  

Nas empresas onde trabalho há décadas (pertencentes ao Grupo Folha e ao Grupo UOL), entre os princípios editoriais está o dever de confirmar a veracidade das notícias apresentadas em matérias ou em editoriais (que expõem a posição dos veículos sobre assuntos de interesse geral). Há também espaços para colunistas externos, cada um expressando suas próprias visões (não necessariamente as da Folha de S. Paulo e do UOL), muitas vezes divergentes entre si, como convém a mídias democráticas. Tudo isso com responsabilidade, obviamente. Por isso, jornalismo sério custa caro: muitas vezes assuntos investigados por meses não são publicados se não passarem pelos critérios internos (para a divulgação, não bastam evidências pálidas; são necessárias provas fortes).

As redes sociais digitais ampliaram muito positivamente a comunicação: de repente, cada um passou a poder produzir informações, opinar, transmitir e interagir diretamente com milhares ou milhões de pessoas. Mas há um lado perverso nesse movimento: nem todos tiveram tempo ou aprendizados para usar esses novos meios com reponsabilidade e consciência. Daí os problemas que temos visto no mundo e também no Brasil: a criação e compartilhamento massivo de fake news, “cancelamentos” de pessoas nas redes sociais (por suas ideias), discursos de ódio e manifestações racistas etc. Além dos danos pessoais, essas práticas de criação e disseminação de notícias falsas e de sentimentos de ódio podem corroer o próprio regime democrático, como temos presenciado (pondo em risco até o modelo mais icônico de democracia, a norte-americana).

A Finlândia é um exemplo a ser seguido: em 2016 implementou no currículo escolar, desde a pré-escola, a educação midiática, para que os alunos aprendam a usar a internet com responsabilidade, principalmente na criação e disseminação de conteúdo. Educados a ter visão crítica para questionar o que recebem pela web, os finlandeses podem avaliar diferentes pontos de vista e tomar decisões com maior consciência. Resultado: são considerados internacionalmente como os que menos acreditam em boatos e mentiras veiculados em plataformas digitais.

No Brasil, temos o Instituto Palavra Aberta, entidade sem fins lucrativos fundada em 2010 (do qual tenho a honra de ser conselheira), que defende a liberdade de expressão e de informação, mantendo-se alerta também quanto ao mau uso dessa liberdade (como às vezes vemos no âmbito das disputas ideológicas). Uma das prioridades do Palavra Aberta é a educação midiática, ou seja, o ensino do bom uso das mídias sociais. A pergunta é: como preparar as crianças e os jovens para o uso dos meios de comunicação com senso crítico, tolerância e responsabilidade?

Em 2019 o Palavra Aberta criou o EducaMídia – Programa de Educação Midiática, para difundir o tema no Brasil e oferecer ferramentas para que crianças e jovens aprendam a consumir informação de forma segura e responsável. O público-alvo são professores e educadores do Ensino Fundamental, com programa alinhado à Base Nacional Curricular Comum (BNCC). Todos os cursos e materiais são gratuitos. O EducaMídia tem abrangência nacional e já formou mais de 52 mil professores, com impacto sobre milhões de alunos.

Ser educado midiaticamente significa aprender a filtrar, ler criticamente e dar sentido ao enorme fluxo de informações que nos cerca. Significa desenvolver nossa voz, promovendo as habilidades necessárias para que possamos nos expressar em diversas linguagens, aprendendo e atuando em nossas comunidades. Significa também aprender a utilizar a tecnologia para participar da sociedade de forma ética, promovendo a empatia, reconhecendo e respeitando a diversidade de vozes e combatendo o discurso de ódio e a intolerância.

Dentro do projeto há também o EducaMídia 60+, voltado ao público maduro. Pesquisas mostram que esse contingente, com menor habilidade nos meandros do mundo digital, é mais propenso a se deixar enganar por golpes cibernéticos e por fake news, propagando-os. Para essa faixa etária foram criados materiais e vídeos específicos.

A educação midiática é o caminho para que o Brasil mude seu status no ranking dos países onde as pessoas mais acreditam em fake news. Uma boa notícia, divulgada em 1º. de janeiro de 2023, foi a criação da Secretaria Especial de Políticas Digitais e de Educação Midiática, vinculada à SECOM (Secretaria de Comunicação Social, do governo federal).

Na cacofonia da internet, com tantos desafios gerados pela desinformação e pelo uso incorreto das redes sociais, iniciativas como essa são uma luz, e merecem nosso apoio. Para conhecer melhor o Instituto Palavra Aberta, acesse:  https://www.palavraaberta.org.br/ 

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Este artigo foi escrito por um colaborador voluntário

O Espaço do Povo existe há mais de 18 anos graças ao trabalho voluntário de pessoas como Judith Brito, que dedicam seu tempo para dar voz às periferias brasileiras. Cada texto publicado fortalece nossa comunidade.

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