Paraisópolis, São Paulo quinta-feira, 3 de setembro de 2026
✍️ OPINIÃO Este é um artigo de opinião. As ideias expressas são de responsabilidade do autor.

Eu não sou masculina! termos preconceituosos que só reforçam a lesbomisoginia

Anne Santos
💚 Colaborador Voluntário

Anne Santos

📅 21 mar 2023 ⏱️ 3 min de leitura

Muita gente acredita que nossas características estéticas e comportamentais nada têm a ver com nossa sexualidade, mas essa ideia está completamente errada. É fato que existem dois tipos de lésbicas: aquelas que são femininas e as que não são. Diversas nomenclaturas foram criadas de forma pejorativa para classificar lésbicas desfeminilizadas, além disso, devido à falta de visibilidade, nós ainda lutamos diariamente para que esses nomes sejam substituídos por termos que não sejam violentos com a nossa existência. Muitas de nós ainda continuam usando esses termos, pois, desconhecem a problemática e os simbolismos que cada um deles carrega.

A origem do termo “Masculina” é completamente lesbofóbica e misógina. O patriarcado impõe a feminilidade para todas as mulheres e esta foi criada com o objetivo de agradar o olhar masculino. As lésbicas desfem respondem com rebeldia a essa imposição, por isso, sofrem punições sociais por assumirem visivelmente a identidade lésbica.

Lésbicas desfem são constantemente bombardeadas pela ideia de que querem ser homens pelo simples fato de se relacionarem apenas com mulheres e buscarem conforto em seu comportamento e estética. Nesse mesmo pacote podemos citar outros termos preconceituosos como “bofinho”, “Machinha” e o famoso “Joãozinho”. O uso do termo “masculina” é ainda mais problemático, pois causa uma distorção do que realmente significa masculinidade. Uma mulher jamais poderá ser masculina, afinal, esse é um instrumento de poder patriarcal.

Como refletiu a escritora Sheila Jeffreys, no livro “Unpacking Queer Politics: A Lesbian Feminist Perspective [tradução livre: Descompactando a política queer: uma perspectiva feminista lésbica]:

“A masculinidade não pode existir sem a feminilidade. Isolada a masculinidade não tem significado, porque ela não é mais que uma metade de um conjunto de relações de poder. A masculinidade pertence à dominação masculina assim como a feminilidade pertence à subordinação feminina.”

Por causa dessa visão, lésbicas caminhoneiras são vistas frequentemente enquanto figuras masculinas, e uma das consequências dessa questão é a imagem de predadora. Usar banheiro público coletivo se torna um pesadelo, pois mulheres femininas e heterossexuais se sentem inseguras com nossa presença, justamente por terem em mente a representação de que lésbicas são predatórias.

O uso desses termos também contribui para que lésbicas desfem acabem desempenhando papéis heterossexistas dentro das relações, e performam assim um suposto lugar de “macho” em seus afetos. Dentro dessa dinâmica da qual chamamos de Butch & Femme [Desfem & Feminina], as caminhoneiras não são dignas de afeto, de cuidado ou até mesmo de prazer sexual.

Mulheridade não é sinônimo de feminilidade, afinal, a realidade material de uma mulher enquanto pessoa do sexo feminino continuará em curso. Posso gostar de usar roupas largas, raspar os cabelos, não usar maquiagem ou deixar de me depilar e continuar sendo mulher. Jamais nos compare com homens. Não temos poder algum de oprimir outras mulheres e muito menos de desempenhar papéis masculinos. Nossa existência enquanto mulher é completa e merece ser respeitada.

O que você achou deste artigo?

💚

Este artigo foi escrito por um colaborador voluntário

O Espaço do Povo existe há mais de 18 anos graças ao trabalho voluntário de pessoas como Anne Santos, que dedicam seu tempo para dar voz às periferias brasileiras. Cada texto publicado fortalece nossa comunidade.

Conheça Anne