Paraisópolis, São Paulo quinta-feira, 3 de setembro de 2026
✍️ OPINIÃO Este é um artigo de opinião. As ideias expressas são de responsabilidade do autor.

A realidade da lésbica desfem no mercado de trabalho

Anne Santos
💚 Colaborador Voluntário

Anne Santos

📅 28 jun 2023 ⏱️ 3 min de leitura

Ser uma mulher lésbica desfeminilizada no mercado de trabalho não é nada fácil. Nossas habilidades são questionadas constantemente, reduzidas a nossa aparência e comportamento que foge do padrão feminino.

Pouco se fala da dificuldade da lésbica desfem em conseguir emprego e essa pauta não é discutida pelos movimentos sociais como o LGBTQIAP+, profissionais de recursos humanos ou por influencers do Linkedin. Isso é fruto da lesbofobia que insiste em apagar nossa existência.

Travei por meses uma longa batalha para voltar ao mercado de trabalho desde que passei a ter uma leitura social sapatão. Fui rejeitada em cargos de liderança por diversas empresas e depois de alguns meses tive que fazer freelas como garçonete e hostess em cafés mesmo sendo publicitária de formação com aproximadamente 5 anos de atuação em redes sociais. A leitura da lésbica desfem carrega estereótipos que nos colocam como mulheres imaturas e de comportamento rude pela ausência de feminilidade que geralmente significa passividade e delicadeza. Tal característica só é exigida socialmente do sexo feminino, pois é evidente que homens não sofrem com a mesma imposição.

Questionei diversas vezes o que havia de errado com minhas habilidades. Nunca tive problemas com entrevistas de emprego, não fico nervosa e sei conduzir bem uma conversa. Descobri que ter consciência política dói e que a realidade da lésbica desfem era muito pior do que eu imaginava.

Muitas empresas não oferecem um espaço acolhedor para trabalhadoras lésbicas como eu, e fora do ambiente de trabalho as violências homofóbicas são diárias. Os olhares nos transportes e banheiros públicos tornam nossa rotina ainda mais difícil.

É preciso desenvolver políticas públicas para a inclusão e acolhimento desse grupo no mercado de trabalho, mas o apagamento da comunidade lésbica continua o mesmo. Somos sub-representadas na política brasileira, o que dificulta o levantamento de pautas sobre a nossa existência. Hoje temos apenas 10 mulheres lésbicas ocupando cargos políticos em todo Brasil. Fátima Bezerra, governadora do RN, foi a primeira e única mulher lésbica a governar um estado brasileiro e esse feito só aconteceu em 2019. Ela foi reeleita em 2022.

Ao observar a lista de parlamentares lésbicas, é notório que nenhuma delas é desfeminilizada, ou seja, possui uma leitura social lésbica. Muitas desfems optam por abrir mão da sua própria identidade, colocando vestido, maquiagem e até mesmo ao mudar a forma de se comportar para conseguir passar em uma entrevista de emprego.

Se não existem mulheres como nós atuando diretamente na política, como iremos abordar e saber as dores que nos assombram há tantos anos? Se não existem mulheres desfem nos cargos de liderança ou até mesmo no quadro geral de colaboradores, como iremos propor melhorias e inclusão desse grupo no mercado de trabalho?

O silenciamento lésbico é também um dos principais pontos que fazem a taxa de lesbocídio ser tão alta, afinal, o empobrecimento da comunidade contribui grandemente para o extermínio das nossas iguais.

Até quando o mundo continuará fingindo que nós não existimos?

O que você achou deste artigo?

💚

Este artigo foi escrito por um colaborador voluntário

O Espaço do Povo existe há mais de 18 anos graças ao trabalho voluntário de pessoas como Anne Santos, que dedicam seu tempo para dar voz às periferias brasileiras. Cada texto publicado fortalece nossa comunidade.

Conheça Anne