Até 2030, cerca de 83 milhões de vagas de trabalho devem desaparecer no mundo por causa da combinação de inteligência artificial, robôs e biotecnologia. A previsão é da futurista Amy Webb, que apresentou seu estudo na SXSW 2026, em Austin, no último domingo (15). Ela ressalta que a mudança será tão rápida que governos e escolas públicas precisam agir agora para evitar que milhões fiquem sem renda.
Webb destaca três áreas que vão crescer mesmo com a automação: tecnologias de reparação (manutenção de drones, celulares, impressoras 3D), cuidados pessoais e com a casa (auxiliares de idosos, técnicos de energia solar, encanadores de água de chuva) e produção local de alimentos. Profissões que exigem engenhosidade com as mãos e conhecimento do próprio bairro dificilmente serão substituídas por máquinas.
O relatório indica que 60% dos jovens que hoje estudam em escolas públicas brasileiras vão trabalhar em cargos que ainda não existem. Para reduzir o risco de desemprego, Webb propõe que escolas técnicas e centros de qualificação comunitárias incluam oficinas de robótica simples, manutenção de painéis solares, hortas hidropônicas e empreendedorismo digital. Programas como o Senai, Instituto Embraer e os mutirões de tecnologia das periferias de São Paulo e Recife já apontam nessa direção, mas precisam multiplicar vagas.
A pesquisadora também chama atenção para o perigo da “super-humanidade”: ricos terão acesso a chips cerebrais, terapias genéticas e exoesqueletos que aumentam força e memória. Isso pode ampliar a desigualdade se políticas públicas não garantirem que essas tecnologias cheguem ao SUS e às escolas. Ela defende a criação de “laboratórios vivos” em favelas e conjuntos habitacionais, onde moradores testam soluções baratas de energia limpa, telemedicina e agricultura vertical antes de levá-las ao governo.
O estudo será entregue ao Banco Interamericano de Desenvolvimento em abril. A ideia é usar os dados para financiar cursos rápidos de qualificação em bairros de renda baixa na América Latina. Webb lembra que a corrida tecnológica é inevitável: “O futuro vai acontecer com ou sem a gente. A pergunta é quem vai decidir as regras: comunidades ou apenas meia dúzia de empresas?”.