Paraisópolis, São Paulo terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Gideão Idelfonso

Retrato da favela: Carolina Maria de Jesus

(Acervo Clarice Lispector, Instituto Moreira Salles / Intervenção/Redação)

Você já ouviu falar de Carolina Maria de Jesus? Mulher preta, da favela, independente. Escritora, poetisa, compositora e catadora de materiais recicláveis. Suas palavras não pedem licença. Batem. Cortam. Atravessam.

Sua notoriedade irrompe com Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, livro feito a partir de seus diários pessoais, onde ela escancarou a luta diária contra a fome, a miséria e as relações humanas atravessadas pela violência no Canindé, uma das primeiras favelas paulistas. Não há romantização. Há denúncia.

Escritos em cadernos encontrados no lixo, seus registros expõem aquilo que o projeto de cidade tentou esconder: racismo estrutural, desigualdade social, violência urbana, a condição da mulher negra, a infância roubada pela fome, a política como abandono e o Estado como ausência. O “quarto de despejo”, como Carolina nomeia a favela, é onde a sociedade larga o que não quer ver, nem ouvir, nem assumir. O fundo da casa. O resto.

O impacto foi inevitável. Quarto de Despejo atravessou fronteiras, foi publicado em mais de quarenta países e segue como um documento incômodo. Não pede leitura. Exige posicionamento. É a partir disso que escrevo um texto poético: em homenagem a Carolina, que não lerá em vida, mas em espírito.

Por muito tempo a favela foi dormitório. E, muitas vezes, velório. Não é mais só despejo. Virou também objeto de desejo. Desejo de quem explora sua imagem, de quem romantiza sem conhecer a dor, desejo dos próprios moradores, que sonham em transformá-la em um lugar onde se possa descansar, não apenas sobreviver.

Escrevo de um favelado para uma favelada. Nasci e cresci na maior periferia de São Paulo, mas poderia ter sido no Canindé, avó de tantas outras que hoje aparecem nos telejornais pinga-sangue. O sol quando se põe na capital paulista eu me pergunto se helicópteros, favelas e pôr do sol formam a alquimia desse jornalismo genocida?

Há uma magia na periferia. Entre tantas mudanças, o que você registrou em seu livro ainda ecoa nos becos e vielas. Desde criança ouço uma frase que sempre achei curiosa: “na favela, igreja vira bar e bar vira igreja”. Na época, eu só via o forró… som alto brigando com a pregação exaltada. Os dois lugares sempre cheios.

Hoje entendo que o periférico precisa de algo para aguentar. Uns procuram prazer. Outros, fé, para acreditar. Tenho a impressão de que nascer na favela não é acaso. A criança não nasce com senso, na favela precisa amadurecer mais cedo. Sei que a senhora não é dada à violência. Eu também não. Ainda assim, ela segue presente e traumática: bala perdida em corpos conhecidos, truculência de todos os lados, tiro, porrada e bomba como se fossem parte de uma limpeza silenciosa. O morador segue no centro do alvo.

Minha vó dizia: “favela é morte no sábado e samba no domingo”. Ali o tempo não anda reto. Ele escorre. E não, aqui não é só dor, Carolina. Tem tambor no beco, corpo em movimento, pixo na parede. Tem panela coletiva quando a fome aperta, mutirão que levanta laje, mãe que cria sozinha e não deixa o filho cair, mesmo tropeçando. Aqui até o silêncio tem ritmo. Até a lágrima aprende a cantar.

Mas não dá pra romantizar. Enquanto alguns sonham com o futuro, outros ficam presos no presente da falta, da bala e do esquecimento. A favela pulsa, resiste, inventa. E sangra.

É essa a maior contradição de um favelado e que machuca: viver entre a dor e a invenção, entre a ausência e a criação.

Com respeito,
Gideão.

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Gideão Idelfonso
ESCRITO POR

Gideão Idelfonso

Cria de Paraisópolis, bacharel em Lazer e Turismo pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Pesquisador com foco na periferia e sua dialética com o Lazer e Turismo. Teve contato com projetos de impacto social em Paraisópolis e em áreas da Zona Leste.

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