Paraisópolis, São Paulo terça-feira, 5 de maio de 2026
Comunicação

Projetos ampliam acesso ao cinema nas comunidades do Rio

Quando jovens da periferia deixam de ser apenas tema das telas e passam a ocupar o lugar de quem cria as imagens, a relação com o cinema muda de sentido. No Rio de Janeiro, projetos em diferentes territórios têm apostado justamente nisso: usar o audiovisual como ferramenta de formação, expressão e construção de identidade.

A proposta vai além de ensinar técnica. Em comunidades como Cidade Alta, Vila Aliança e Complexo do Chapadão, o projeto Cinema di Cria nasceu do desejo de um motoboy de contar as próprias histórias e acabou se transformando em uma rede de formação para outros jovens. Já o Circuito Cine Curta leva oficinas e exibições a escolas públicas, com atividades de roteiro, produção, som, fotografia, edição e finalização.

No caso do Cinema di Cria, a iniciativa começou de forma improvisada, sem estrutura nem apoio técnico, mas cresceu a partir da vontade de transformar vivências em narrativas audiovisuais. O que era uma busca individual virou um processo coletivo, no qual novos participantes passaram a aprender, produzir e até seguir carreira na área.

O projeto também ganhou força a partir de experiências marcantes nas comunidades, como a observação de crianças que antes brincavam com armas de papelão e hoje simulam cenas de cinema. Essa mudança simboliza algo maior: a câmera passa a disputar espaço com narrativas marcadas pela violência e pela exclusão.

O Circuito Cine Curta, criado em 2010, nasceu de exibições públicas em praças e depois avançou para dentro das escolas, ampliando o contato de adolescentes com o universo audiovisual. A ideia é que os estudantes não apenas assistam a filmes, mas também aprendam a produzir suas próprias obras.

Neste mês, o projeto abriu 25 vagas e priorizou jovens de territórios como Rocinha e Vidigal, reforçando a dimensão social da iniciativa. A formação busca estimular autonomia criativa e ampliar as possibilidades profissionais de quem historicamente teve pouco acesso a esse mercado.

Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que a presença de jovens periféricos no audiovisual altera quem tem o poder de contar essas histórias. Em vez de serem representados por olhares externos, eles passam a narrar a própria realidade, com mais complexidade e menos estereótipos.

Essa mudança também tem impacto simbólico e educacional. Além de fortalecer a autoestima e o vínculo com o território, os projetos ajudam a desenvolver leitura crítica das imagens e compreensão do funcionamento do cinema como linguagem. Para os pesquisadores citados, formar realizadores nas periferias é também formar novos olhares sobre a cidade e sobre o país.

Apesar do impacto positivo, manter essas iniciativas exige recursos, equipamentos e continuidade. O audiovisual é caro, e a falta de financiamento ainda é um dos maiores obstáculos para a permanência dos projetos.

Mesmo assim, os organizadores mantêm metas ambiciosas: transformar a formação em estrutura permanente, ampliar o número de participantes e consolidar a favela como polo de produção cultural. A aposta é que, ao colocar a câmera nas mãos de quem vive esses territórios, o cinema também ajude a reescrever a imagem das periferias no imaginário da cidade.

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Redação Espaço do Povo
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Redação Espaço do Povo

Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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