40 mil alunos que estudavam no meio da rua, em barracos ou sob árvores passaram a ter aula própria graças a um kit de madeira que vira escola em 15 minutos. A criação da professora brasileira Renata Meirelles acaba de ser premiada com US$ 1 milhão — cerca de R$ 5 milhões — no Global Teacher Prize, considerado o Nobel da Educação.
A ideia nasceu em 2016, quando Renata viu alunos da comunidade Santo André, em Vila Velha (ES), perderem a aula depois que a prefeitra mandou derrubar a escola porque o terreno era irregular. “Não dava para aceitar que criança ficasse sem estudar por falta de um espaço”, diz a educadora, 43, que desde 2010 leciona em escolas públicas da periferia capixaba.
O kit batizado de Sala de Aula na Caixa tem bancos, lousa, tinta, cadernos, livros e um manual que ensina pais, líderes comunitários ou jovens de 16 anos a montar o espaço. A montagem exige apenas um chão plano e dois voluntários; em duas horas a estrutura de madeira reaproveitada vira sala para 30 alunos. O custo por unidade é R$ 4 mil — oito vezes menos que uma sala convencional.
Até hoje 800 salas foram montadas em 220 comunidades de Espírito Santo, Bahia, Pará, Pernambuco e Rio de Janeiro. A maioria fica dentro de favelas ou assentamentos onde o poder público não chegou. Em 2022, o projeto virou ONG — Instituto Sala de Aula — e passou a treinar jovens da própria comunidade como monitores. “Quem cuida da escola é quem vive ali; isso mantém o lugar vivo”, afirma Renata.
O prêmio, entregue em cerimônia de Londres na semana passada, vai financiar a meta de dobrar o número de salas até 2026. Parte do dinheiro será usada também para criar uma plataforma digital com aulas de português, matemática e ciências gravadas por professores voluntários. O conteúdo poderá ser acessado offline, por celular, nas regiões sem internet.
Para o Ministério da Educação, há hoje 1,3 milhão de crianças fora da escola no país — 6% na faixa de 4 a 17 anos. A cifra sobe para 12% nas áreas rurais. Renata lembra que a solução não substitui a obrigação do Estado, mas evita que crianças fiquem paradas. “Enquanto a política pública não chega, a gente inventa. A educação não pode esperar.”