Os 7 mil poços de petróleo e gás abandonados pela Petrobras no país estão criando um buraco de R$ 31 bilhões no orçamento e risco real de explosão, contaminação e perda de renda para quem mora perto. A estatal quer passar a conta para a União, mas a Agência Nacional do Petróleo (ANP) contesta o valor e o prazo, travando o pagamento das obras.
Dados da própria Petrobras mostram que mais da metade desses poços fica em áreas úmidas ou costeiras, muitas delas junto a favelas e vilas de pescadores. O óleo cru que pinga lentamente mancha o solo, o metano acumula-se no ar e a pesca fica impraticável. Moradores de Messejana, em Fortaleza, relatam cheiro de ovos podres que entra dentro de casa e crianças com tosse constante.
A lei obriga a empresa a selar cada poço depois que a produção acaba. O serviço inclui retirar tubos, injetar cimento e restaurar o terreno. Sem isso, o metal oxida, a pressão sobe e o poço pode explodir. Em 2019, um vazamento num poço na Bahia levou seis dias para ser controlado e deixou 30 famílias desabrigadas.
A Petrobras alega que os poços foram perfurados antes de 1997, quando o país não cobrava depósitos de garantia. A ANP responde que a responsabilidade é da companhia, pois ela herdou o passivo ao comprar campos antigos. Enquanto os técnicos discutem, nenhuma licitação foi aberta e a estimativa de custo só cresce: subiu 24% só no último ano.
Para quem vive do extrativismo, o preço é mais alto. Pescadores de São Francisco do Conde (BA) tiveram de abandonar áreas de marisco depois que análise da Universidade Federal da Bahia apontou hidrocarbonetos 40 vezes acima do limite no sangue de caranguejos. “O pessoal continua comendo porque é o que tem. O mercado não quer mais comprar nosso pescado”, diz a presidente da colônia de pescadores, Maria das Graças Silva.