Paraisópolis, São Paulo domingo, 15 de março de 2026
Cultura

Periferia recupera o ‘nada faz sentido’ para gerar emprego e cultura

Cinco mil jovens de favelas do Rio, São Paulo e Recife estão trocando a rolagem sem fim do celular por oficinas de costura, pixação legalizada, podcast e culinária que nascem do ócio organizado. O projeto Ocio Criativo, ligado a redes comunitárias, libera R$ 400 de auxílio mensal para que moradores dediquem quatro horas diárias a produções culturais que viram renda.

A proposta nasceu da constatação de que algoritmos de redes sociais cobram até 3h45 de atenção por dia de moradores de periferia, tempo que poderia gerar emprego ou estudo. Líderes locais montaram um cronograma com encontros presenciais em casas de cultura e quadras cobertas, onde o celular fica no criado-mudo e as mãos ganham linha, tecido, microfone ou panela.

Quem participa cria peças de moda que vendem em feiras da comunidade, episódios de podcast sobre cotidiano local que rendem patrocínio de pequenos comércios, e pratos típicos vendidos em food bikes financiadas pelo programa. O resultado direto: 42% dos envolvidos deixaram trabalhos informais precários nos últimos 12 meses para viver só das atividades criativas, segundo levantamento interno.

O financiamento vem de uma parceria entre fundos municipais de cultura e oações de empresas de tecnologia que pagam o equivalente a 1% da receita líquida para programas de inclusão digital. Cada real investido volta multiplicado em cursos gratuitos e microcrédito para compra de máquinas de costura, notebooks ou kits de gravação.

O impacto no dia a dia aparece em números: moradores relatam queda de 28% na conta de internet residencial, já que deixam de consumir vídeo compulsivo, e economizam em média R$ 60 por mês que antes iam para planos de dados extras. O tempo livre virou matéria-prima: oficinas acontecem de terça a sábado, com crianças, jovens e idosos divididos em turmas que respeitam a rotina de quem estuda ou tem filhos.

Para quem quiser replicar a fórmula, a dica é começar pequeno. No Jardim Nordeste, zona leste de São Paulo, a costureira Luciana Silva, 36, reuniu seis vizinhas em um barracão de estoque de supermercado depois do horário de funcionamento. Com duas máquinas doadas e retalhos de fábrica, o grupo hoje confecciona 120 máscaras e 40 bolsas por mês, vende no Instagram e garante renda extra de R$ 500 para cada integrante.

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Redação Espaço do Povo
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Redação Espaço do Povo

Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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