Um grupo de 160 adolescentes das periferias de Porto Alegre está aprendendo judô gratuitamente graças ao Projeto Renascer Judocando, mantido por professores voluntários em cinco territórios vulneráveis da cidade. Criado em 2019, o programa oferece aulas duas vezes por semana para meninos e meninas entre 10 e 17 anos que não têm outro acesso a esportes fora da escola.
O judô chegou primeiro no bairro Restinga, onde o educador físico Rodrigo Silva, 38, percebeu que a falta de espaços seguros deixava a juventude exposta ao tráfico. “A gente abre o ginásio, coloca o tatame e vira referência. Quando o pivete vê o colega de rua com faixa colorida, bate vontade de treinar também”, conta o professor, que dobra o salário de auxiliar de marcenaria para bancar o transporte dos atletas para competições.
Os treinos acontecem em escolas públicas nos bairros Restinga, Lomba do Pinheiro, Partenon, Santa Tereza e Sarandi. A maioria dos jovens chega sem experiência em esporte de combate e leva entre seis meses e um ano para conquistar a primeira faixa. “É um processo que ensina disciplina antes do golpe. A regra é clara: se entrar no tatame sem material escolar em dia, senta e assiste”, explica Silva.
Além do aprendizado técnico, o projeto monitora frequência na escola e notas. Quando algum aluno falta aos estudos, os professores visitam a família para entender o que aconteceu. O acompanhamento rendeu resultados: desde 2021, 94% dos participantes terminaram o ensino fundamental no prazo. Três ex-alunos hoje dão aulas como monitores bolsistas e já somam 15 medalhas em campeonatos municipais.
O custo mensal de R$ 7 mil para uniformes, seguro e lanche é bancado por doações de pequenas empresas da região e por um edital da Secretaria Municipal de Esportes. A verba, porém, não é fixa. Em 2022, atrasos deixaram 40 crianças fora das competições. “Precisamos de apoio constante. Doação pontual salva o mês, mas quem garante futuro é contrato recorrente”, alerta Silva.
Para Mariana Costa, 15, moradora da Lomba do Pinheiro, o judô virou rota de fuga. “Antes eu saía correndo quando ouvia tiros. Hoje sei que posso correr para o tatame depois da aula.” Ela treina há dois anos, já ganhou duas competições escolares e sonha ser professora de educação física. “Minha mãe fala que a faixa amarela no meu armário vale mais que qualquer brinco de ouro.”