DJ e rapper transformou gangues de rua em movimento cultural, mas legado é marcado por controvérsias
O mundo da música perdeu nesta quinta-feira (9) um de seus personagens mais influentes e polêmicos. Afrika Bambaataa, nascido Lance Taylor, faleceu aos 68 anos na Pensilvânia, Estados Unidos, vítima de complicações causadas por um câncer de próstata.
Nascido em 17 de abril de 1957 no bairro do Bronx, em Nova York, Bambaataa foi um dos arquitetos fundamentais da cultura hip-hop. Filho de imigrantes jamaicanos e barbadianos, cresceu no Bronx River Projects e, durante a juventude, tornou-se membro da gangue Black Spades, onde chegou ao posto de “warlord”, responsável por expandir o território e recrutar novos membros.
Sua vida mudou após ganhar um concurso de redação que lhe proporcionou uma viagem à África. Inspirado pelo filme Zulu e pelas comunidades que visitou, adotou o nome Afrika Bambaataa Aasim, em homenagem ao chefe zulu Bhambatha, que liderou uma rebelião armada contra práticas econômicas injustas na África do Sul no início do século XX.
Em 1977, fundou a Universal Zulu Nation, a primeira organização de hip-hop do mundo, transformando gangues de rua em um movimento cultural focado em música, arte e conscientização política. A data oficial de fundação, 12 de novembro de 1977, é considerada um marco na história do gênero.
Bambaataa é creditado como um dos criadores do breakbeat DJing e responsável por lançar em 1982 o hit “Planet Rock”, que fundiu elementos de música eletrônica europeia com batidas hip-hop, criando o subgênero electro-funk. A canção revolucionou a música dance e influenciou gerações de produtores e DJs.
Sua abordagem eclética, que misturava rock, funk, música africana e eletrônica, ajudou a expandir os limites do que se considerava hip-hop, transformando-o em uma cultura global.
Apesar de sua contribuição artística inegável, os últimos anos de Bambaataa foram marcados por graves acusações de abuso sexual de menores. Em abril de 2016, o ativista político Ronald “Bee-Stinger” Savage acusou o DJ de abuso sexual ocorrido em 1980, quando Savage tinha 15 anos. Outros três homens apresentaram acusações similares nas semanas seguintes.
Em maio de 2016, a Universal Zulu Nation se desassociou de Bambaataa e ele renunciou ao cargo de líder da organização. A Zulu Nation emitiu uma carta aberta pedindo desculpas às supostas vítimas e assumindo responsabilidade pela “resposta inadequada” às denúncias.
Em 2025, Bambaataa perdeu uma ação civil movida por um homem que alegou ter sido abusado sexualmente e traficado pelo DJ entre 1991 e 1995, quando era menor de idade. Nenhuma acusação criminal foi formalizada contra ele.
A morte de Afrika Bambaataa deixa um legado ambíguo: por um lado, sua contribuição para a formação e disseminação da cultura hip-hop é inquestionável; por outro, as acusações de abuso sexual ofuscaram sua trajetória artística nos últimos anos.
O hip-hop, que ele ajudou a criar nas ruas do Bronx, tornou-se a cultura dominante do século XXI, influenciando música, moda, política e comportamento em escala global.
Afrika Bambaataa deixa familiares, admiradores e, acima de tudo, um capítulo complexo na história da música negra americana.
Fontes: UOL, G1, CNN Brasil, Rolling Stone, Variety, Wikipedia