Gasto excessivo com aluguel impulsiona moradia em favelas”, explica Karina Leitão em entrevista ao IHU. A arquiteta e urbanista discute o déficit habitacional brasileiro, enfatizando que 60% dele decorre de famílias comprometendo mais de 30% da renda com aluguel .
O Brasil registra cerca de 6 milhões de domicílios em déficit, mas a maioria das famílias já mora em algum lugar, muitas vezes em condições precárias ou com ônus excessivo de aluguel . Karina Leitão, do LahHab-USP, destaca que quase 4 milhões de lares gastam além do limite acessível com moradia formal, levando à busca por favelas e autoconstruções . Outros 27 milhões enfrentam inadequações como coabitação forçada ou falta de saneamento .
Favelas surgiram como refúgio de trabalhadores pobres, em áreas como morros, baixadas ou palafitas em cidades como Belém, Manaus, Florianópolis e Rio . Em Belém, 50-80% da cidade é favela, construída por esforços familiares sem apoio estatal . No Rio, exemplos como Brás de Pina mostram urbanizações bem-sucedidas via luta coletiva e intervenção de arquitetos .
Programas como Minha Casa Minha Vida entregam casas enfileiradas sem infraestrutura comercial ou amenidades, forçando moradores a improvisar . Karina critica remoções violentas em São Paulo e defende urbanizar o estoque existente em vez de construir do zero . Favelas oferecem urbanidade rica, com comércio e solidariedade, contrastando com conjuntos isolados .
Em São Paulo, apartamentos minúsculos (menos de 30m²) atendem investidores para aluguel e Airbnb, destruindo tecido urbano . Karina alerta para a tensão legal entre função social da propriedade e direito capitalista à especulação . Movimentos ocupam prédios vazios, reabilitando-os e buscando usucapião, superando ações estatais em alguns casos .
O LahHab propõe urbanização de favelas e qualificação do estoque habitacional, com Estado investindo robustamente conforme Constituição e Estatuto da Cidade . Movimentos populares e Igreja Católica, via Campanha da Fraternidade 2026, politizam a pobreza e pressionam por moradia digna . Karina inspira-se em São Francisco e Mia Couto, defendendo dignidade nas autoconstruções “pedra sobre pedra, sonho sobre sonho” .