Doenças do coração já são a principal causa de morte entre mulheres brasileiras, mas o aviso chega tarde para muitas porque os sintomas não seguem o padrão clássico de dor no peito. Náusea, dor nas costas, cansaço intenso e mal-estar geral são sinais frequentes nos casos femininos e acabam interpretados como problema de estômago, ansiedade ou stress.
O erro de diagnóstico custa caro. Segundo dados do Ministério da Saúde, uma mulher morre de infarto a cada 30 minutos no país. A taxa de letalidade é 30% maior entre as mulheres do que entre os homens, aponta o cardiologista André Araújo, presidente da Socesp. Ele explica que o corpo feminino responde de outra forma: as artérias ficam estreitas de modo difuso, sem obstruir um ponto só, e o exame de eletrocardiograma pode sair normal mesmo com o coração em risco.
Postos de saúde da periferia costumam receber mulheres de 40 a 65 anos queixando-se de indisposição, enxaqueca ou dor na mandíbula. A paciente leva remédio para ansiedade e volta para casa. Dias depois volta com o infarto em curso. A demasia se repete: mulheres negras e com renda baixa levam em média 54 minutos a mais que os homens para receber atendimento de emergência, aponta estudo do Instituto Dante Pazzanese.
O SUS oferece desde 2019 protocolo específico para suspeita de infarto em mulheres, mas a orientação ainda não chegou a todas as unidades. A dica que médicos repetem nas salas de espera: se os sintomas surgem de repouso ou pioram com esforço mínimo, procure ajuda imediatamente. Leve um acompanhante e diga que desconfia de infarto. Quanto antes o tratamento começar, menores as chances de sequelas.
Prevenir é possível. Controle da pressão, atividade física regular e redução do sal já diminuem pela metade o risco. Farmácias populares distribuem gratuitamente remédios para hipertensão e diabetes. Em São Paulo, as Unidades de Saúde da Família fazem acompanhamento mensal de mulheres acima de 40 anos. Marcar a consulta é o primeiro passo para evitar a estatística.