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Imortalidade

Imagem: <a href="https://br.freepik.com/fotos-gratis/uma-ampulheta-com-areia-no-meio-e-a-palavra-areia-nela_41199662.htm#fromView=search&page=1&position=21&uuid=8c2d62fd-519a-49aa-bf70-c4a553ffd2e7">Imagem de chandlervid85 no Freepik</a>

Na fase final da vida, meu pai, com sua verve cômica, dizia: “Quase 90 anos! Onde já se viu isso?” Era sua forma de dizer – com ironia e sem queixas – que já estava de bom tamanho ter vivido tanto. Não precisava mais.

Concordo com ele. Viver pode ser muito bom – e agradeço a sorte de ter a minha vida, com altos e baixos (como as de todos), mas com muita gente amada e interessante à minha volta. Isso faz a vida valer a pena. Mas não me incluo entre aqueles que dariam a vida… para ter mais tempo de vida.

Sei que a busca da imortalidade nasceu com a própria humanidade. Antigos egípcios construíam pirâmides protegendo os corpos mumificados de seus faraós, para que revivessem. Na mitologia, o tema também é recorrente. Outros, obsessivos, acabaram morrendo envenenados justamente por substâncias mágicas que os fariam viver eternamente.

Na prática, o conhecimento tem sido o responsável por alongar o tempo de vida. Redução de índices de violência, vacinação, medicamentos cada vez mais sofisticados, procedimentos de saneamento básico e cuidados com o corpo e a mente têm contribuído para aumentar muito a expectativa média de vida: menos de 30 anos na Idade Média e agora, 74 anos entre as mulheres e 69 entre homens na média mundial (dados da OMS de 2016).

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Essa média varia de acordo com o grau de desenvolvimento: no Japão, chega a mais de 88 anos, e em alguns países da África não atinge os 40 anos. No Brasil, a esperança de vida é de 80 anos entre mulheres e 73 anos entre homens, segundo projeções do IBGE (em 2019). Por aqui, o salto foi enorme nas últimas décadas: na média geral, a expectativa de vida era de somente 48 anos em 1960.

Não é só. A ciência tem também buscado formas de alongar ou de quase perpetuar a existência, tratando a velhice como “doença” a ser combatida. Não me refiro à tentativa de alguns de cuidar obsessivamente da aparência, a ponto de se tornarem seres esticados e deformados. Refiro-me a substâncias que atacam o processo de envelhecimento e as doenças decorrentes da idade.

Mas a pergunta é: será que vale a pena a “imortalidade”? Mesmo para quem leva uma vida interessante – e me incluo nesse grupo – a perspectiva de um fim faz sentido, faz da existência um ciclo, uma espécie de missão a ser concluída.

De certa forma, meus pais são imortais, pelo que fizeram e pelo legado moral que deixaram aos filhos e seus descendentes. Não é à toa que a família continua a reverenciá-los em conversas engraçadas, ao vivo ou virtualmente, partilhando fotos e memórias, e imaginando a fala de cada um diante de fatos atuais. Então – e respeitando quem pensa diferente – talvez eu prefira esse tipo de imortalidade. Afinal, onde já se viu querer perambular para sempre por esse mundão velho?

Como você se sente sobre isso?

Judith Brito

Judith Brito

Jornalista e colaborador do Espaço do Povo.

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