Maria das Dores Rodrigues chegou a Manaus há 40 anos com três filhos, nenhum tostão na bolsa e a certeza de que precisava fugir da violência doméstica. A casa que começou em um terreno invadido virou hoje o Grupo de Defesa da Mulher Amazônica, organização que já capacitou 5 mil mulheres em oficinas de costura, informática, empreendedorismo e direitos.
O trabalho começou dentro de igrejas e escolas públicas do bairro Coroado, zona norte da capital amazonense. Maria reunia vizinhas para discutir a conta de luz alta, a falta de creche ou o patrão que não pagava. O bate-papo ganhou forma em 1984 virando uma associação que hoje tem sala de aula, consultório jurídico próprio e um banco de sementes mantido por agricultoras de 17 comunidades rurais.
O grupo virou referência nacional ao ligar feminismo com cotidiano de quem mora em área sem ônibus, esgoto ou posto de saúde. Criou o curso “Empreende Mulher” que transformou costureiras de favela em donas de marca própria de moda sustentável. A cooperativa “Tecendo Raízes” vende sacolas ecológicas para supermercados da cidade e fatura R$ 8 mil por mês, valor que garanto o sustento de 25 famílias.
A secretária nacional de políticas para mulheres visitou a sede do coletivo em 2023 e replicou o modelo para 10 estados. A próxima meta é abrir um centro de tecnologia com 30 computadores doados pela Universidade Federal do Amazonas para ensinar edição de imagens e atendimento virtual a produtoras de artesanato.
Quem passa pela associação hoje encontra filas para oficina de criação de conta em redes sociais e para aula de como pedir pensão alimentícia. Maria, hoje com 67 anos, garante que o segredo é tratar cada mulher como potencial multiplicadora. “A gente não resiste, a gente transforma”, repete a fundadora toda vez que uma formanda ganha sua primeira máquina de costura doada pelo grupo.