Há uma estranha tendência humana de medir a qualidade da vida pela ausência de atrito. Como se o bom fosse aquilo que não exigisse esforço, espera ou renúncia. Mas talvez estejamos usando o critério errado.
A natureza nunca fortalece aquilo que não é tensionado.
O ferro encontra sua utilidade no fogo. A árvore aprofunda suas raízes quando o vento insiste. O cérebro reorganiza seus caminhos quando é obrigado a encontrar novas soluções. A personalidade também obedece a essa lógica. Ela não nasce pronta. É esculpida pelo encontro entre quem somos e aquilo que resiste a nós.
A dificuldade não é apenas um obstáculo entre o presente e o futuro. Muitas vezes, ela é o próprio caminho da transformação.
Existe uma diferença entre sofrer e ser formado. O sofrimento, por si só, não ensina nada. Mas quando a dor encontra significado, ela deixa de ser apenas um peso e passa a ser matéria-prima para uma nova identidade.
Curiosamente, quase tudo o que admiramos em alguém, serenidade, coragem, prudência, perseverança e maturidade, não pode ser comprado, herdado ou improvisado. Essas virtudes são sedimentadas lentamente pela repetição de experiências que ninguém escolheria viver, mas das quais ninguém sai exatamente igual.
Talvez o verdadeiro oposto da dificuldade não seja o conforto, mas a estagnação.
Uma vida sem resistência pode poupar o corpo do cansaço, mas quase sempre cobra da alma o preço da superficialidade. Há capacidades que só despertam quando aquilo que conhecíamos deixa de ser suficiente.
Por isso, alguns dos capítulos mais desconfortáveis da vida acabam sendo também os mais decisivos. Não porque a dor seja boa, mas porque ela frequentemente obriga o ser humano a tornar-se maior do que era.
No fim, percebemos que não fomos apenas capazes de suportar a dificuldade.
Fomos recriados por ela.
Foi difícil.
Foi ótimo.
Evelin Santos – Psicóloga