Judith Brito

Fitzcarralda

Orgulho-me das personalidades dos meus dois filhos, já adultos – embora saiba não ter muitos méritos nesse assunto. No fundo, considero-me sortuda mesmo porque, além das qualidades, eles desempenham papéis complementares em minha vida.

João, o mais velho, é responsável e centrado. Quando criança, parecia um miniadulto, ponderando sobre cada decisão. Lembro-me de não ter nem mesmo colocado redes nas janelas do apartamento, achando que seria mais fácil eu cair ou pular do que ele. Mateus, 20 anos mais novo, é outro modelo: não é porra-louca, porém é mais comunicativo, ansioso e impulsivo. Neste caso, em sua fase infantil, por precaução, cerquei janelas e varandas com redes.

A melhor parte é a combinação. Brincando com os jargões freudianos: o João funciona como meu Superego – um conselheiro que lembra sempre o que é mais adequado e razoável. Já o Mateus é o meu ID, atiçando meus instintos e minha porção impulsiva. O resultado pode ser engraçado – e útil. Apesar de, como o João, eu também ser centrada e responsável, de vez em quando brotam em minha mente projetos pelos quais me apaixono – alguns, verdadeiras ideias de jerico.

Sonho

Publicidade

In-Content (300x250)

300x250

Uma vez, por exemplo, acordei no meio da noite e, sabe-se lá por que, minha cabeça estava invadida por uma vontade: criar uma floresta na área de pastos do meu sítio, deixando-a como herança aos meus netos. Pronto! Imediatamente comecei a pensar nos detalhes, e imaginei que minha nora agrônoma certamente me ajudaria no projeto. Em poucos minutos, imagens paradisíacas de árvores imensas, com pássaros exóticos e bichinhos fofos, passavam por minha cabeça. Aquilo me deixou animadíssima!

Nem esperei amanhecer para submeter ao meu “conselho de administração” os novos planos: não querendo acordá-los naquela hora, escrevi para João e Mateus, no grupo de WhatsApp que temos. Expliquei que em alguma parte de nossa floresta haveria uma ágora, como na Grécia Antiga, onde as pessoas poderiam expor ideias, cantar, interpretar etc. Vaticinei ser conveniente a proibição de automóveis. Somente transitariam os viventes, homens e bichos. E assim por diante.

Tão logo acordou, Mateus-ID me respondeu: “Mãe, é a melhor ideia que você teve até hoje!” Respondi que minha melhor ideia foi tê-los, e recebi de volta imagens de coraçõezinhos. Quanto ao João-Superego, nada. Silêncio sepulcral.
No final de semana, chegando à casa do Superego, digo, do João, a primeira pessoa que encontrei foi minha nora. Contei-lhe sobre o projeto e percebi, pela gargalhada, tratar-se, de fato, de ideia de jerico. Ela me explicou: “Seria um presente de grego para os seus netos: um empreendimento caro e difícil de cuidar”.

Silêncio

Entendi que o silêncio do João-Superego já era sua resposta – talvez constrangida, diante de meu entusiasmo. Imaginei-me como o irlandês Brian Fitzgerald, que inspirou o filme Fitzcarraldo, de Werner Herzog: obstinado, no início do século 20 ele quis construir um teatro para óperas em plena selva amazônica. Tarefa megalomaníaca – e totalmente fadada ao fracasso.

No fim das contas, pensei com meus botões: meus netos não terão a floresta, mas terão boas histórias com que se divertirem. E tem outra: às vezes o ID se rebela…

Como você se sente sobre isso?

2 pessoas reagiram
Judith Brito

Judith Brito

Jornalista e colaborador do Espaço do Povo.

Ver todos os artigos →