550 moradores de favelas e periferias do Rio fecharam na última semana um caderno com 87 propostas para melhorar saneamento, moradia, saúde mental e cultura nos territórios. O documento será a carta de navegação da Conferência Favela, Vida e Direitos, marcada para 12 de abril na UFRJ, onde líderes comunitários cobrarão do poder público ações concretas.
Durante três dias na Unisuam de Bonsucesso, na Zona Norte, os participantes dos projetos Cria Saúde, Plantando Saúde e Impulso de Gerações dividiram-se em grupos de trabalho para transformar diagnósticos locais em soluções possíveis de serem aplicadas. Os debates renderam dez eixos temáticos, entre eles Saneamento Básico, Habitação, Cultura e Lazer, Saúde Mental e Comunidades Tradicionais como Lugares de Cuidado.
A ideia central é inverter a lógica: quem vive a desigualdade propõe o remédio. “As favelas deixam de ser apenas problema e passam a ser campo de soluções”, resume André Lima, coordenador da iniciativa na Fiocruz. A conferência final vai reunir gestores municipais e estaduais para tratar das reivindicações feitas a partir da realidade de quem enfrenta cotidianamente a falta de água tratada, a queda de postes ou a ausência de centros de cultura.
As propostas saem do papel se houver orçamento. Por isso, o caderno será usado como instrumento de pressão para que secretarias incluam as demandas nos planos de governo. A estratégia já deu certo em edições anteriores: em 2024, a prefeitura carioca destinou recursos para a construção de cisternas em três comunidades após mobilização semelhante.
Pré-reuniões aconteceram entre 28 de fevereiro e 7 de março. No primeiro dia, moradores e pesquisadores discutiram saúde integral; no segundo, líderes de terreiros e quilombos debateram integração entre saberes populares e serviços públicos. No encerramento, jovens formados em cursos de qualificação apresentaram planos de microempreendedorismo que pretendem tirar do papel com apoio da conferência.