Jürgen Habermas morreu nesta quinta-feira (19) aos 95 anos em Starnberg, na Alemanha. O filósofo criou a ideia de “esfera pública” — espaço onde cidadãos debatem os problemas da cidade e pressionam governos. Na prática, quem vive em favela sabe que esse espaço ainda é de poucos.
Para Habermas, a democracia só funciona quando todos conseguem falar e ser ouvidos. Nas periferias brasileiras, moradores organizam assembleias de beco, audiências públicas comunitárias e grupos de WhatsApp que viram verdadeiras redações de bairro. Mesmo assim, obras, reajustes de ônibus ou remoções costumam ser decididos sem consulta.
A chegada da internet celular mudou parte do jogo. Hoje, 93% dos moradores de comunidades têm acesso à rede via celular, segundo pesquisa Locomotiva de 2023. Lives, reels e postagens viram forma de denunciar buracos, falta de água ou racismo na escola. O problema é que prefeitura e câmara ainda não têm mecanismos oficiais para transformar essa voz em política pública.
O debate ganha força agora porque a cidade de São Paulo prepara o orçamento participativo de 2025. Associações de moradores querem garantir que as prioridades que surgem nas reuniões de rua — mais creches, pavimentação e postos de saúde — não fiquem fora da lista final. A lição de Habermas, dizem líderes comunitários, é que democracia sem escuta é só propaganda.
A morte do filósofo não fecha o assunto. Nas palavras da presidente da União de Moradores do Jardim Helena, Rosa Maria da Silva, 52, “a esfera pública da favela existe, mas precisa ser reconhecida como direito e não tratada como favor”.