A baixista e vocalista Fernanda Lira, 34 anos, cresceu na Vila Paulistaninha, em Sapopembra, extremo da zona leste de São Paulo. Hoje ela divide o palco com o Crypta em festivais como Wacken Open Air e Graspop, na Europa, e usa a visibilidade para abrir caminhos para meninas da quebrada.
Lira começou tocando violão com a mãe, operária de fábrica de plásticos. Não havia dinheiro para aula ou instrumento novo. A menina aprendeu música católica da igreja, trocou o violão por um contrabaixo que ganhou de presente com 15 anos e montou sua primeira banda numa sala da Emei Vila Paulistaninha. O pai, pedreiro, virou roadie nos fins de semana para garantir o transporte dos equipamentos.
O Crypta, fundado em 2020, já tem três discos lançados e média de 120 shows por ano. A banda viaja em turnê por 30 países e acaba de voltar de uma sequência de 40 apresentações na América do Norte e Europa. A grana da estrada banca projetos sociais: Lira paga oficinas de música para 40 adolescentes no CEU Sapopemba e doa instrumentos usados para quem quer formar grupo.
O orgulho de origem virou discurso de palco. Em show em São Paulo, ela declarou: “Nasci e fui criada na periferia. Isso me deu a pegada que você ouve no meu baixo”. O público respondeu com gritos de “a favela mandou um abraço”. O momento viralizou no TikTok e impulsionou a venda de ingressos para a turnê nacional.
O impacto vai além dos holofotes. A musicista lançou o selo Periferia Records para distribuir no Spotify e Deezer bandas de metal formadas em quebradas de São Paulo, Rio e Recife. O primeiro EP saiu em março e reuniu cinco grupos de mulheres. O streaming rendeu cerca de R$ 25 mil em três meses, valor que foi dividido entre as artistas e reinvestido em gravação de álbuns completos.