A mostra “Cabeça-Território, Raiz-Continente” transformou o CEU Parque Belém, na zona sul de São Paulo, num salão de arte com entrada franca. Trinta artistas negros e negras ocupam as salas com instalações feitas de tranças, tintas e objetos que falam sobre cabelo, memória e território. A exposição fica em cartaz até 28 de julho e já bateu recorde de público do centro cultural: mais de três mil visitantes em 15 dias.
O cabelo crespo é o ponto de partida. Em uma das paredes, 300 fotos de moradores da região exibem os mais de 40 tipos de tranças usadas no cotidiano. “A ideia é mostrar que o cabelo é mapa: diz onde a pessoa mora, com quem anda, que festa vai”, explica a curadora e trancista Jéssica Martins, 29, nascida no Jardim Ângela.
A artista plástica Rafaela Oliveira, 34, levou três meses para tecer 12 metros de cordão de algodão tingido com urucum, jenipapo e açafrão. O resultado vira escultura suspensa que lembra cabelo enrolado em movimento. “Usei os pigmentos que minha avó usava para tingir tecido; é tecnologia antiga que não precisa de máquina”, conta.
A visitação é orientada: a cada 30 minutos educadores do CEU abrem grupo gratuito para jovens da rede municipal. Depois do circuito, crianças e adolescentes participam de oficina de tranças simples e aprendem sobre cuidados com o couro cabeludo. O material usado — óleo de coco, creme de karité e pente de madeira — é doado por salões locais.
A entrada é livre, mas as doações de lenços de cetim e produtos capilares viraram moeda de troca. Quem leva um kit completo ganha camiseta estampada com desenho de raiz de planta que lembra cabelo crespo. Até agora, moradores levaram 800 itens que serão distribuídos em mutirões de cuidado com o cabelo em sete CRAS da região.