Os barcos começaram a atracar nas comunidades ribeirinhas do Rio Tapajós no último fim de semana com 60 estudantes de medicina e professores que vão passar 15 dias oferecendo consultas de mastologia, clínica geral, cirurgias menores e aulas de saúde para famílias que vivem a até 12 horas de barco do hospital mais próximo.
A expedição é a 14ª edição do programa Missão Amazônia, organizado pela faculdade Inspirali, de São Paulo. A ideia nasceu em 2010, quando professores perceberam que os futuros médicos só conheciam a realidade dos grandes centros. Desde então, mais de 1.200 alunos já participaram das edições pelo Norte e Centro-Oeste, somando 45 mil atendimentos em comunidades sem postos de saúde equipados.
Desta vez, a equipe desembarca em vilas como Surucá, Maguari e Piquiatuba, onde moradores contam nos dedos as vezes que viram um especialista no ano. Cada aluno acorda às 5h, monta a tenda de atendimento no salão da escola ou na igreja e atende até 40 pessoas por dia. Quem precisa de exames que não existem na região ganha um cartão com data para buscar o resultado na cidade mais próxima, a 300 km de barco.
O coordenador da missão, Dr. Paulo Henrique, explica que o foco são doenças que poderiam ser evitadas com diagnóstico precoce: câncer de mama, hipertensão, diabetes e infecções parasitárias. “Aqui, uma simples dor de barriga pode virar cirurgia de emergência porque não tem ultrassom na vila”, diz. Os estudantes levam 300 kg de medicamentos doados por laboratórios e distribuem receitas gratuitas.
Para as famílias, o impacto é imediato. Dona Raimunda, 58, chegou à escola de Surucá com dor no peito havia dois anos. Depois da consulta, descobriu um nódulo e já saiu com encaixe no SUS de Santarém para biópsia. “Se não fosse a missão, eu só iria quando não aguentasse mais”, conta. Os filhos dela aproveitaram para vacinar crianças e levar aulas de higiene bucal nas escolas.
O programa também forma médicos mais preparados para o SUS. Ao final da missão, os alunos entregam um relatório com dados de saúde da população para a Secretaria Municipal. A prefeitura de Santarém usa os números para justificar ao governo estadual a abertura de novas unidades de saúde nas ilhas. “A gente volta diferentes, entendendo que medicina é mais que receita: é organizar a comunidade para exigir direito”, observa a acadêmica Ana Paula, 24, em sua terceira missão.