Paraisópolis, São Paulo quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Débora Pereira

Ele não é louco, é sádico

O que acontece quando em rede nacional um participante de reality show escancara o seu sadismo?

Antes de responder essa pergunta gostaria de mencionar o que é e como é o comportamento de uma pessoa sádica:

Sadismo: em termos psicológicos, é caracterizado pelo prazer ou satisfação obtida através do sofrimento alheio, seja ele físico, emocional ou psicológico.

Comportamento e Atitudes Comuns:

•​ Busca por Domínio e Controle: o sádico sente prazer em exercer poder sobre os outros. Ele se sente bem ao ver que alguém está sob seu comando ou “em suas mãos”.

•​ Falta de Empatia: incapacidade (ou recusa) de se colocar no lugar do outro. A dor alheia não causa desconforto; pelo contrário, é vista como um sinal de vitória ou entretenimento.

•​ Manipulação e Humilhação: muitas vezes, o sadismo pode ser sutil por meio de comentários depreciativos, sarcasmo agressivo e humilhação pública, visando diminuir a autoestima da vítima.

•​ Uso de Intimidação: usam o medo como ferramenta para dominação nos relacionamentos ou no trabalho. Assédio moral, por exemplo, há um desejo sádico por trás.

O sádico sente prazer no desespero de suas vítimas, se acha esperto, já que a tendência da vítima é não desconfiar de sua atitude cruel, ele se diverte ao ver as pessoas que têm contato com ele tentando buscar alguma razão lógica e específica. E para a nossa surpresa não há.

Tendo essas informações há de se ter o consenso de que se trata de uma pessoa que prática crueldades e, chegando a essa conclusão, nos sentimos muito próximos de identificar a sua maldade e desviar dela, ou de pessoas com esse traço. Porém, não é esse o caminho que tendemos a seguir, normalmente ficamos incrédulos e buscando razões que explicariam o porquê dessa pessoa agir assim, como se ela tivesse que ter algum motivo antecedente que o motivasse. Perdemos tempo querendo encontrar justificativas no comportamento do outro, para quem sabe, continuar acreditando que pessoas más não existem. Um exemplo disso, é que dentro da casa “mais vigiada” do Brasil, os participantes de convivência com um sádico, ficaram supondo possíveis transtornos mentais para dar base aos comportamentos problemáticos.

Estamos diante de uma nova onda na área da saúde mental, a classificação em massa de transtornos, para saciar a nossa insatisfação com resultados desconfortáveis advindos de escolhas intencionais. Temos dificuldade de enxergar e nos responsabilizar pelas nossas próprias intenções. E falo isso com dois pés atrás, pois nem todo comportamento disfuncional é patológico, mas transtornos mentais existem e precisam de tratamento, o problema é quando utilizamos disso para mascarar o nosso próprio desvio de caráter. O rapaz em questão, por exemplo, fingiu ter crises de ansiedade e quantas outras pessoas também usam os transtornos para justificar racismo, xenofobia, violências ou abusos?

Estamos diante de uma crise humanitária com avaliações clínicas, laudos precoces e banalização da medicação psiquiátrica, tudo isso sendo assinado e carimbado por profissionais com parcerias com a indústria farmacêutica e estamos fazendo vista grossa para isso. A Psicologia, junto com a Psiquiatria está indo por um caminho que acredito ser perigoso, se antes tínhamos dificuldade em ter diagnósticos, atualmente está tão fácil quanto a compra de fast food. E será que estamos preparados para lidar com as consequências disso?

Recentemente estive numa Universidade palestrando e o que me chocou foram as perguntas dos alunos em busca de diagnósticos que justificassem atitudes do dia a dia, o foco da psicologia moderna mudou, não estamos mais focados em compreender a estrutura psíquica por trás dos comportamentos, ou as dores da alma que advém dela, estamos focados em classificar e medicar, ou rotular e adestrar as variáveis de expressões puramente humanas, a fim de ajustar o sujeito a uma sociedade totalmente desajustada e doentia.

Nesse contexto, nos isentamos da nossa própria capacidade de sermos maus, porque sim, o ser humano é capaz de ser mau por pura escolha e prazer e isso não é necessariamente patológico, quando tentamos dar uma patologia para um comportamento intencional, abrimos caminho para que pessoas cruéis e com propósitos egoístas possam ascender socialmente, buscando o poder como um desejo infantil por dominação. O problema disso é que pessoas más em posição de poder causam estragos por passam e ganham admiradores, pois a causa não é humana e sim por poder, temos dentro nós um desejo enorme em sermos importantes e poderosos e quando estamos embebidos por esse desejo infantil e primitivo não consideramos a humanidade do outro e passamos por cima de quem quer que seja que ameace essa posição. A falta de consciência da nossa Sombra é nossa própria destruição e a psicologia moderna não parece comprometida em olhar para isso.

Escrevo esse texto com a esperança de que os próximos passos da saúde mental sejam mais conscientes, responsáveis e humanos. Para que possamos forjar seres humanos capazes de reconhecer o seu lado bélico, mas que opte por escolher a lucidez, o respeito e a humanidade.

“Nada acontece ao homem, que não seja do próprio homem.”
Marco Aurélio

Como você se sente sobre isso?
Débora Pereira
ESCRITO POR

Débora Pereira

Psicóloga, psicoterapeuta, palestrante e desde 2021 atua como analista de RH no Emprega Comunidades de Paraisópolis.

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