O documentário Nzila acaba de estrear com a proposta de registrar como moradores de favelas da Baixada Fluminense e da Zona Sul do Rio constroem formas próprias de combate ao racismo a partir da cultura, da religião e da memória ancestral. Dirigido por jovens negros das próprias comunidades, o filme percorre terreiros de candomblé, blocos de rua, roda de samba e oficinas de capoeira para mostrar que a resistência antirracista não começa nas universidades, mas nos quintais e vielas onde a população negra é maioria.
O trabalho nasceu dentro do projeto Rede Jovem de Comunicação, que há dez anos forma cineastas e comunicadores em áreas periféricas. A ideia era contrapor a imagem que cola nas favelas — de lugar apenas de carença ou tráfico — e evidenciar o conhecimento que protege crianças e adolescentes do racismo institucional. “A gente queria mostrar que a cura está no terreiro, no canto, na roda de capoeira, na forma como a mãe ensina o menino a se defender sem perder a alegria”, diz uma das realizadoras, a jovem da Serrinha, em entrevista captada pelo filme.
Gravado entre 2021 e 2023, o documentário entrevista 28 pessoas — sambadores, pais-de-santo, professoras, MCs, artesãs — que explicam como práticas como o jongo, o afoxé e o samba de roda funcionam como escudo psicológico contra a violência simbólica da escola, da polícia e do trabalho. A palavra “Nzila” vem do kimbundu e quer dizer “caminho”: o filme argumenta que a tradição africana oferece um caminho possível para que a juventude neira não se veja apenas como vítima, mas como herdeira de saberes que já libertam.
O impacto na comunidade já é visível. Depois das exibições-teste em escolas públicas de Duque de Caxias e em associações de moradores da Rocinha, professores relataram redução de casos de bullying racial e aumento de alunos negros se inscrevendo em projetos de dança e música. A Secretaria Municipal de Educação do Rio, procurada pela reportagem, não respondeu se há plano de incluir o filme na formação docente, mas a produtora independente já prepara uma versão de 20 minutos adaptada para salas de aula.
O longa de 56 minutos está disponível gratuitamente no canal do Rede Jovem no YouTube e pode ser solicitado para exibições comunitárias pelo WhatsApp da própria rede. A equipe pretende levar o filme para assentamentos rurais do interior fluminense e para comunidades quilombolas de Minas Gerais ainda em 2024, criando pontes entre distintos territórios negros. “Se a gente conseguir fazer uma criança se olhar no espelho e se sentir bonita, já cumpriu a missão”, resume a diretora.