Paraisópolis, São Paulo terça-feira, 10 de março de 2026
Cultura

Do bar quebrado ao consultório: analista mostra como as periferias ensinam o Brasil a falar de si

O bar de esquina quebrado virou consultório. Lá dentro, um menino que cresceu ouvindo a mãe, doméstica, voltar exausta de trabalhar ouviu 30 mil histórias de brasileiros que, como ele, aprenderam a calar dor. Hoje, psicanalista e escritor, ele devolve ao país o que aprendeu no divã: quem vive na periferia tem muito a ensinar sobre sofrimento, resistência e cuidado.

O livro que nasceu dessa experiência chega às livrarias com tiragem bancada por edital da Lei Aldir Blanc. A obra não fala de casos clínicos, mas de padrões: trabalhadores que sentem culpa por não aguentar três empregos, mães que choram por não ter comida suficiente, jovens que acham que fracassaram por não ter vaga na faculdade. Tudo escutado em bairros onde o terapeuta atendia de graça nas segundas-feiras.

A proposta surtiu efeito. Leitores de escolas públicas do interior de Pernambuco escreveram cartas dizendo que pela primeira vez se viam em páginas de um livro. Em São Paulo, uma associação de moradores da Vila Prudente adaptou capítulos para peças de teatro de rua. O autor repassa os direitos autorais para grupos comunitários que queiram imprimir cópias baratas.

A psicanálise, explica ele, serve para desmontar o discurso de que quem é pobre deve aceitar sofrer em silêncio. Quando uma faxineira percebe que a exaustão não é falha pessoal, mas efeito de jornadas de 12 horas, ela começa a cobrar políticas de cuidado. O consultório virou palco de organização: moradoras criaram mutirão de escuta nas sextas, adolescentes montaram grupo de leitura de quadrinhos que fala de saúde mental.

O impacto local é concreto. Desde 2022, a prefeitura do Recife incluiu oficinas de escuta nas Unidades de Saúde da Família depois de ver a demanda crescer no bairro onde o analista começou. Cada posto recebe 50 fichas mensais para quem quer falar sem pressa. A fila virou indicador: quando aumenta, a administração sabe que algo na vida cotidiana piorou — transporte, alimentação ou trabalho informal.

O livro fecha com um convite: levar a escuta para onde o SUS ainda não chega. Em 2024, o projeto-piloto vai montar tendas de escuta em feiras livres de Caruará, Paulista e Olinda. Quem sentar no banco ganha uma caderneta com telefones de assistência social, creces, cursos de qualificação e endereço de cooperativas de crédito. A ideia é trocar o divã pelo chão da rua, onde nasce a vida que o Brasil insiste em não ver.

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Redação Espaço do Povo

Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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