Dia Mundial da Menopausa, celebrado neste domingo (18), chama atenção para sintomas pouco reconhecidos, dor crônica, dificuldades de tratamento e desigualdades que afetam milhões de brasileiras.
Ondas de calor, noites mal dormidas, dores no corpo, alterações de humor e dificuldade de concentração podem fazer parte da transição para a menopausa. Apesar de comuns, esses sintomas nem sempre são reconhecidos pelas próprias mulheres ou considerados adequadamente durante o atendimento de saúde.
Neste domingo, 18 de outubro, o Dia Mundial da Menopausa chama atenção para uma fase que pode afetar o trabalho, o sono, os relacionamentos e a qualidade de vida.
Um estudo brasileiro publicado em 2022 na revista científica Climacteric, com 1.500 mulheres de 45 a 65 anos, identificou que 87,9% relataram algum sintoma do climatério. Entre as participantes que estavam na menopausa ou em sua transição, 52,1% receberam alguma prescrição médica e 22,3% tiveram indicação de terapia hormonal.
Os resultados não significam que todas as mulheres precisariam de hormônios. O tratamento depende de sintomas, riscos, contraindicações e preferências individuais. Mas a pesquisa revela diferenças importantes no acesso e na continuidade do cuidado.
Quantas brasileiras passam pela menopausa?
Segundo informações divulgadas pelo Ministério das Mulheres em setembro de 2026, o Brasil possui aproximadamente 37 milhões de mulheres entre 40 e 65 anos, conforme projeções do IBGE citadas pelo governo.
Esse número representa uma população potencialmente envolvida nas diferentes fases do climatério, mas não significa que todas já estejam na menopausa.
O governo estima que entre 20% e 30% das mulheres apresentem sintomas moderados ou graves durante a transição, com possíveis consequências para o cotidiano.
A menopausa é confirmada, em geral, depois de 12 meses consecutivos sem menstruação, desde que não exista outra causa que explique a ausência dos ciclos. Costuma ocorrer entre os 45 e 55 anos.
Já o climatério é um período mais amplo, que pode começar anos antes da última menstruação e continuar depois dela.
Sintomas que podem passar despercebidos
As ondas de calor são um dos sinais mais conhecidos. Entretanto, a transição hormonal pode envolver manifestações que muitas pessoas não associam imediatamente à menopausa.
Entre elas estão:
- Insônia e suor noturno.
- Irregularidade menstrual.
- Ansiedade, irritabilidade e alterações de humor.
- Dificuldade de concentração e queixas de memória.
- Dores articulares e musculares.
- Ressecamento vaginal e dor durante as relações sexuais.
- Sintomas urinários, como urgência para urinar.
- Mudanças no desejo sexual.
Nem todos esses sintomas são necessariamente provocados pela menopausa. Distúrbios da tireoide, anemia, depressão, doenças reumatológicas e outras condições podem apresentar manifestações semelhantes.
Por isso, a avaliação médica deve considerar o histórico da paciente e investigar outras causas quando necessário.
O problema dos sintomas que não entram na consulta
A falta de reconhecimento do climatério pode dificultar o diagnóstico e o tratamento adequado.
Uma mulher pode procurar atendimento por insônia, palpitações ou dores musculares sem relacionar esses problemas às mudanças hormonais. Se a consulta se concentrar apenas no sintoma isolado, a transição menopausal pode deixar de ser considerada.
Também existe o risco de que determinadas queixas sejam minimizadas ou atribuídas automaticamente ao envelhecimento, ao estresse ou a questões emocionais.
Esse problema não deve ser confundido com uma taxa comprovada de subnotificação. Os estudos disponíveis demonstram sintomas frequentes e desigualdades de tratamento, mas não permitem calcular quantas brasileiras estão sem diagnóstico ou quantas consultas deixam de registrar o climatério.
A falta de dados abrangentes sobre reconhecimento, registro e acompanhamento também dificulta dimensionar as necessidades de saúde dessa população.
Por que a dor crônica é o tema mundial de 2026?
A International Menopause Society, organização responsável pelo Dia Mundial da Menopausa, escolheu a dor crônica na meia-idade como tema da campanha de 2026.
O objetivo é ampliar o reconhecimento de problemas persistentes de dor e incentivar cuidados baseados em evidências.
Durante o climatério, algumas mulheres relatam dores articulares e musculares, que podem comprometer o sono, a mobilidade e a realização de tarefas diárias.
No entanto, é fundamental não atribuir qualquer dor à menopausa. Doenças inflamatórias, alterações musculoesqueléticas e outras condições precisam ser avaliadas.
A campanha internacional também chama atenção para o risco de que relatos de dor feitos por mulheres sejam desvalorizados ou tratados como manifestações exclusivamente emocionais.
A menopausa pode afetar o trabalho e a renda
Para mulheres que passam o dia em pé, enfrentam longos deslocamentos ou trabalham em ambientes quentes, sintomas como fogachos, fadiga e noites sem dormir podem tornar a rotina mais difícil.
A dificuldade de concentração e o cansaço persistente também podem interferir na produtividade e no bem-estar.
Esses impactos não são iguais para todas. A possibilidade de consultar especialistas, adaptar horários, trabalhar em ambientes climatizados ou pagar tratamentos interfere na maneira como cada pessoa enfrenta essa fase.
Nas periferias, jornadas de trabalho extensas, responsabilidades familiares e deslocamentos podem dificultar a continuidade do acompanhamento. Isso não significa que todas as mulheres periféricas vivenciem a menopausa da mesma maneira, mas evidencia obstáculos concretos que precisam ser considerados pelos serviços de saúde.
O acolhimento também depende de informação. Quando a mulher desconhece a relação entre seus sintomas e o climatério, pode demorar mais para procurar atendimento.
Pesquisa aponta desigualdade na continuidade do tratamento
O Brazilian Menopause Study encontrou diferenças significativas entre classes sociais no tempo de utilização da terapia hormonal.
Entre as mulheres que iniciaram o tratamento, a duração mediana foi de oito meses. Na classe A, chegou a 24 meses. Nas classes D e E, foi de apenas três meses.
Essa diferença não prova, isoladamente, quais fatores provocaram a interrupção do tratamento. Custos, acesso aos serviços, decisões clínicas, efeitos adversos e preferências individuais precisam ser considerados.
Mesmo assim, a distância entre os grupos chama atenção para a necessidade de investigar as barreiras que influenciam a continuidade do cuidado.
A menopausa não deve ser tratada como uma doença. Mas também não é adequado considerar que todo sofrimento associado a essa fase precisa ser suportado sem tratamento.
Terapia hormonal: quem pode fazer e quais os cuidados?
A terapia hormonal pode ser eficaz para aliviar ondas de calor e outros sintomas vasomotores. Algumas apresentações de estrogênio vaginal também podem ajudar em casos de ressecamento e desconforto genital.
A indicação depende da avaliação individual, considerando idade, tempo desde a menopausa, histórico clínico e riscos associados.
Pessoas com determinadas condições, como histórico de câncer de mama sensível a hormônios, trombose ou sangramento genital sem causa esclarecida, podem ter contraindicações a certos tratamentos hormonais.
Existem também alternativas não hormonais, que podem ser consideradas de acordo com os sintomas e a condição clínica.
Nenhuma mulher deve iniciar, interromper ou alterar tratamento hormonal por conta própria.
Como aliviar os sintomas e cuidar da saúde?
Algumas medidas podem ajudar a melhorar o bem-estar durante a transição:
- Praticar atividade física regularmente, incluindo exercícios de fortalecimento muscular.
- Manter alimentação equilibrada, com atenção à saúde óssea e às necessidades nutricionais.
- Cuidar do sono e observar fatores que pioram as ondas de calor.
- Evitar o tabagismo e reduzir o consumo de álcool.
- Conversar com profissionais de saúde sobre sintomas físicos, emocionais, genitais e urinários.
- Manter o acompanhamento de pressão arterial, glicemia e outros fatores de risco, conforme orientação profissional.
Esses cuidados não substituem avaliação médica e não garantem o desaparecimento dos sintomas.
Sangramentos após a menopausa precisam ser investigados. Da mesma forma, dores persistentes, palpitações importantes e alterações intensas de humor não devem ser automaticamente atribuídas às mudanças hormonais.
Como conseguir atendimento para menopausa pelo SUS?
O primeiro caminho é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS).
Não é necessário esperar que a menstruação termine definitivamente. Mulheres que percebem mudanças no ciclo menstrual, no sono ou na saúde a partir dos 40 anos podem solicitar avaliação.
Na consulta, é importante informar quando os sintomas começaram, com que frequência acontecem e de que maneira prejudicam a rotina.
O diagnóstico costuma ser clínico. De acordo com orientações do Ministério da Saúde, exames hormonais de rotina não são necessários na maioria das mulheres acima de 40 anos, embora possam ser indicados em situações específicas.
O acompanhamento pode envolver orientações, medicamentos e encaminhamento a especialistas quando necessário.
O SUS dispõe de estriol em creme para determinadas manifestações geniturinárias, mas a disponibilidade concreta deve ser confirmada na farmácia da unidade de saúde.
Em 2026, o Ministério da Saúde publicou orientação técnica para qualificar o cuidado às pessoas na transição menopausal, na menopausa e na pós-menopausa na Atenção Primária à Saúde.
Informação e cuidado fazem diferença
O Dia Mundial da Menopausa busca ampliar o conhecimento sobre uma etapa natural da vida, mas que pode exigir acompanhamento contínuo.
O desafio é reconhecer sintomas sem transformar toda mudança física em doença, investigar problemas que precisam de tratamento e garantir que o acesso ao cuidado não dependa exclusivamente da renda ou do endereço.
Para mulheres que enfrentam sintomas persistentes, o primeiro passo é buscar orientação profissional. Quanto mais completa for a conversa durante a consulta, maiores são as possibilidades de identificar necessidades e construir um plano de cuidado adequado.