Paraisópolis, São Paulo quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
✍️ OPINIÃO Este é um artigo de opinião. As ideias expressas são de responsabilidade do autor.

Elas sempre estiveram aqui

🎤 Convidado
💚 Colaborador Voluntário

Judith Brito

É mãe, avó e executiva do Grupo Folha e do Grupo UOL.

📅 27 jan 2025 ⏱️ 3 min de leitura

Sempre digo que meu saudoso pai, à sua maneira, foi um feminista. Falava com emoção de suas avós, mulheres guerreiras, trabalhadeiras na dura vida da roça, íntegras e transmissoras de valores éticos aos muitos filhos. Sobre alguns dos homens da época, simplesmente silenciava. Meu pai não era dado a críticas, mas eu entendia sua postura como silenciosa reprovação pelo machismo que presenciara. Aliás, ser macho-alpha era “normal” na época.

Sua cumplicidade com minha mãe também era admirável. Divertia-se com as trapalhadas dela (a mãe mais bem-humorada do mundo, garantidora do alto astral da casa). Quando ela se foi, ele, desolado, falava com admiração de como ela foi parceira nas agruras da vida, especialmente no início da vida a dois, quando eram pobres de marré de si. A especial sintonia comigo, numa casa com seis filhos e só duas filhas, também refletia a atenção dele com o feminino.

Lembrei-me de tudo isso ao ver o badalado – merecidamente – “Ainda estou aqui”, filme dos internacionalmente premiados Walter Salles (o diretor) e Fernanda Torres (a atriz Globo de Ouro, indicada ao Oscar e também excelente escritora). Já tinha lido sobre o filme, amigos tinham recomendado, e meu filho mais novo me contou de sua emoção diante da obra. Mateus me disse que chorou diversas vezes, parte porque se lembrava de mim ao ver Torres interpretando a brava Eunice Paiva, talvez por alguma semelhança física e também pelo mesmo jeito contido de administrar momentos difíceis (embora nem de longe eu tenha experienciado o que passou a viúva de Rubens Paiva, torturado e morto pelo regime militar). Muito bom que os jovens possam aprender, através da arte, sobre o horror das ditaduras – sejam elas de direita ou de esquerda.

O engenhoso roteiro do filme, baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva (filho de Eunice e Rubens), mostra a mulher de fibra que, mesmo sob sofrimento intenso com o desaparecimento do marido e também torturada pelos militares, conseguiu conduzir a família de cinco filhos, criá-los, formar-se em Direito (aos 47 anos) e se tornar defensora de causas indígenas (tendo trabalhado para a ONU). O atestado de óbito de Rubens Paiva só foi expedido em 1996, 25 anos após seu desaparecimento, em resposta à luta incansável de Eunice. E só agora, em janeiro de 2025, o documento foi corrigido, reconhecendo que a morte de Paiva foi decorrência de tortura pelo regime militar.

Conhecer a história de Eunice Paiva é homenagear tantas mulheres, famosas ou anônimas, do passado remoto ou do presente, que venceram com fibra a tirania e a violência. Meu pai certamente teria admiração pela trajetória dessa heroína. A obra é também homenagem aos homens – como Rubens Paiva – que defenderam e defendem a democracia. E que sabem valorizar o feminino.

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Este artigo foi escrito por um colaborador voluntário

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