A história que virou filme indicado ao Oscar começou como boato em plantão de jornal. No Recife dos anos 70, repórteres ouviam versões de uma mulher de pernas cabeludas que assustava moradores. O boato virou lenda, a lenda virou roteiro e hoje está no longa “Perna Cabeluda”, escolhido para representar o Brasil na disputa pelo Oscar 2026.
O diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho transformou o rumor em retrato da ditadura. Na trama, a personagem misteriosa aparece em meio à repressão política, torturas e desaparecimentos. A abordagem conecta o medo sobrenatural ao medo real vivido pelas famílias pernambucanas durante o regime militar.
O curioso é que o boato original não falava em política. Era história de corredor de redação: alguém vira uma mulher estranha, outro conta que ela corre pelas ruas, o medo se espalha. Kleber recuperou essa memória coletiva e mostrou como o terror do Estado se misturava ao cotidiano das periferias.
O filme foi gravado em bairros como Casa Amarela e Jardim São Paulo, com moradores como figurantes. A produção gerou renda local e deixou equipamento de audiovisual para associações comunitárias usarem depois das gravações.
“Perna Cabeluda” estreia nos cinemas em setembro. Antes disso, passa por escolas públicas do Recife em sessões gratuitas promovidas pela prefeitura. A ideia é que estudantes debatam ditadura, memória e o poder do cinema feito com raiz.