Paraisópolis, São Paulo terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Gastronomia

Comida de raiz: como sabor carrega fé, sorte e memória nas mesas populares

Na cozinha da dona Maria, 68, no Jardim das Camélias, zona sul de São Paulo, o cheiro de folha de louro é sinônimo de proteção. “Quando meu neto vai fazer prova, coloco um pé de louro dentro da panela do arroz. Minha mãe fazia assim para ‘abrir caminho’”, conta. O gesto, que parece simples, carrega séculos de crença: no candomblé, o louro tira o mau-olhado; nas comunidades evangélicas virou “consagração do tempero”.

A relação entre comida e fé não é novidade, mas nas periferias ganha sabor de sobrevivência. Depois da abolição, ex-escravizados levaram para as favelas o acarajé oferendado a Oxum e o pé de feijão que simboliza fartura nos terreiros. Hoje, o mesmo prato aparece em cultos de igrejas neopentecostais, batizado de “feijão da prosperidade”. “A receita mudou de nome, mas o significado é o mesmo: pedir que a próxima semana traga alimento de verdade”, observa a historiadora popular Lucilene Dias, moradora do Parque Santo Antônio.

Sorte também entra pela boca. Em cada virada de ano, Ceasa e o Mercado Municipal da Vila Clara ficam lotados de pessoas comprando uvas, lentilhas e folhas verdes. O comerciante João Paulo, 42, reserva 200 caixas de uva para vender entre 23 e 31 de dezembro. “É o que garante o aluguel de janeiro”, diz. A tradição veio dos imigrantes italianos que ocuparam os cortiços de Brás e Mooca no início do século XX. Para eles, cada grão representava uma moeda; para os filhos e netos de nordestinos que hoje vivem no Jardim Iva, a uva virou desejo de emprego fixo.

Os alimentos ainda funcionam como cartão de visita afetivo. Quando a vizinha Dona Sueli ensina a fazer o arroz-doce de leite em pó, está passando adiante a receita que aprendeu com a mãe, operária de fábrica de tecelagem em 1979. “Não tinha dinheiro pra leite fresco, mas o cheiro doce alegrava a casa”, lembra. Hoje, o mesmo doce é servido nos aniversários de 15 anos da rua. O gesto repele a ideia de que periferia é só falta; mostra que aqui se inventa, se compartilha e se ama por meio do prato.

Trabalhadores da economia criativa perceberam força nessa narrativa. No Grajaú, o restaurante Mão na Massa serve o “prato do domingo” com couve, feijão tropeiro e farofa de quiabo a R$ 15. “Resgatamos o sabor da casa da vó e cobrimos um valor que cabe no bolso do motoboy”, diz a chef Jéssica Araújo, 29. O cardápio muda conforme a doação da horta comunitária vizinha, provando que tradição pode ser fresca e viva.

Para trazer esses símbolos à mesa de hoje, basta começar pelos temperos. Guarde um pedaço de gengibre para fazer chá quando a tarde estiver difícil; erva-cidreira, que cresce até em vaso de iogurte, acalma depois do plantão. Comida de raiz não é luxo: é linguagem de quem sabe que, mesmo sem dinheiro, ainda temos história para partilhar. E, no fim, cada garfada conta: “Estou vivo, resisti e vou continuar.”

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Redação Espaço do Povo
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Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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