Do menino que vendia rãs em botequins da Tijuca ao reconhecimento mundial, o pioneiro do rock brasileiro morreu aos 81 anos no Rio, cinco dias após levar o Grammy Latino com o disco “O futuro pertence à… Jovem Guarda”.
Morreu na terça-feira, 22 de novembro de 2022, no Rio de Janeiro, aos 81 anos, Erasmo Esteves, o Tremendão. Internado no Hospital Barra D’Or, na Barra da Tijuca, o cantor e compositor não resistiu a um quadro de paniculite que evoluiu para uma sepse de origem cutânea. Deixou a esposa, Fernanda Passos, e os filhos. O velório aconteceu no Memorial do Carmo.
A ironia mais doída dessa partida é o seu timing: apenas cinco dias antes, em 17 de novembro, Erasmo havia recebido em Las Vegas o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa, por “O futuro pertence à… Jovem Guarda” — um disco que revisitava, com arranjos novos, os clássicos do movimento que ele ajudou a fundar. Sua última postagem no Instagram comemorava exatamente essa conquista. O futuro era dele. E ele partiu em plena glória.
Nascido em 5 de junho de 1941 na Tijuca, Zona Norte do Rio, Erasmo foi criado pela mãe, a inspetora escolar Maria Diva Esteves — uma baiana que o trouxe ao mundo sozinha. Ele só conheceria o próprio pai aos 23 anos. Antes de viver de música, vendeu revistas usadas e levou sapos e rãs para vender em botequins da vizinhança. Foi nessa mesma Tijuca, criança de rua, que fez amizade com outros dois garotos que mudariam a música brasileira: Tim Maia e Jorge Ben Jor.
Em 1958, um adolescente chamado Roberto Carlos bateu à sua porta procurando a letra de “Hound Dog”, de Elvis Presley, que ia cantar na televisão. Nasceu ali uma parceria de mais de 60 anos e centenas de canções — entre elas “Detalhes”, “Emoções”, “Amada Amante” e o hino “Quero que vá tudo pro inferno”. Mais de 750 composições registradas na União Brasileira de Compositores, da qual era diretor.
De 1965 a 1968, ao lado de Roberto Carlos e Wanderléa, comandou na TV Record o programa Jovem Guarda — o marco zero do rock brasileiro feito por brasileiros. No trio, Erasmo era o Tremendão: alto, forte, de jaqueta de couro e pulseiras, o roqueiro rebelde inspirado em Elvis. Mas quem o conheceu de perto diz outra coisa: era um gigante gentil, dono de uma voz grave e acolhedora que, décadas depois, continuaria relevante — com discos aclamados pela crítica, participação de artistas de todas as gerações e um documentário, Erasmo 80, lançado em 2021 na Globoplay.
Para o povo, Erasmo Carlos foi mais que um ídolo. Foi prova de que um menino da Tijuca, filho de mãe solteira, vendedor de rãs, podia chegar ao topo do mundo — e voltar para casa com o mesmo sorriso. Hoje, o céu ganha mais uma estrela. E lá embaixo, fica a certeza: vai ter festa de arromba para receber o Tremendão.