Matera, no sul da Itália, transformou um conjunto de cavernas ocupadas há 9 mil anos em moradia, hotel e renda para ex-moradores. Até 1950, 16 mil pessoas dividiam grutas sem luz, água ou esgoto. O governo italiano transferiu todos para bairros novos e deixou o local fechado por três décadas.
Na década de 1980, antigos residentes e artistas começaram a reformar as cavernas com regras de preservação. Quem pagava a obra podia morar ou abrir negócio. Currais viraram pousadas, depósitos viram restaurantes e cisternas se tornaram galerias. A lei de 1986 garantiu a posse dos que restaurassem as rochas.
O turismo cresceu 176% entre 2012 e 2017. Matera recebeu o título de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1993 e virou Capital Europeia da Cultura em 2019. Hoje, 60% dos 30 mil habitantes vivem do comércio ou serviços ligados ao turismo, segundo a prefeitura.
O modelo interessa a comunidades brasileiras que enfrentam remoção. Em favelas como da Maré, no Rio, ou no Jardim Pantanal, em São Paulo, moradores já discutem a ideia de regularizar a posse sem derrubar casa, desde que haja investimento em infraestrutura e a população fique no local.
A experiência italiana mostra que moradia precária pode virar patrimônio sem expulsar quem sempre morou lá. A chave foi combinar preservação, participação popular e geração de trabalho dentro da própria comunidade.