A Polícia Civil de São Paulo investiga a morte de pelo menos seis bebês e crianças atendidos no Hospital e Maternidade Salvalus, da rede Hapvida, na Mooca, zona leste da capital. O inquérito está no 8º Distrito Policial (Brás) e começou depois que os casos, ocorridos ao longo deste ano, foram comunicados à polícia na quarta-feira (21), segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP).
Os números do caso não coincidem. Enquanto o 8º DP apura seis mortes, a Secretaria de Estado da Saúde informa que as vigilâncias Sanitária e Epidemiológica inspecionaram a unidade para averiguar as circunstâncias de 35 óbitos de bebês registrados neste ano. A assistente jurídica Eduarda Fragnan Gomes, que atende famílias das vítimas, afirma manter contato com 36 mães que perderam os filhos no hospital em cerca de nove meses e prestar assistência a três delas.
A investigação inclui depoimentos de profissionais de saúde e testemunhas e a análise integral dos prontuários médicos, para esclarecer as causas e as circunstâncias das mortes. Os familiares suspeitam de infecções contraídas durante a internação, de falhas na assistência e de inconsistências nos registros médicos. As hipóteses ainda não foram confirmadas pelas autoridades.
Boletins de ocorrência e certidões de óbito obtidos pelas reportagens trazem causas como sepse, choque séptico, pneumonia, insuficiência respiratória aguda e insuficiência renal aguda. As certidões registram a causa médica da morte, mas não estabelecem, por si só, que a infecção foi contraída no hospital nem que houve falha no atendimento: essa relação depende da análise dos prontuários, de exames e de outras provas.
Um dos casos é o de Alice Vitória de Andrade Reis, que morreu em 3 de abril deste ano, quatro dias depois de completar 1 ano, após seis meses internada na UTI do Salvalus. A mãe, a assistente social Leticia Ferreira, de 29 anos, diz que a menina entrou na unidade em novembro do ano passado para a colocação de uma sonda de alimentação e que contraiu a bactéria KPC durante a internação. A certidão de óbito aponta insuficiência respiratória aguda, ventriculite infecciosa, sepse de foco pulmonar, hidrocefalia e síndrome de Dandy-Walker.
“Fomos para uma cirurgia simples e achei que iria embora, e nunca mais saí com ela de lá”, disse Leticia. Ela afirma que a filha, que tinha a síndrome de Dandy-Walker e hidrocefalia, não estava doente quando deu entrada no hospital, apenas para trocar a sonda. “Nada vai trazer minha filha de volta, mas são tantos casos, tantas mães, que não acho justo que o hospital não pague por isso.”
Outros relatos seguem o mesmo roteiro de internação prolongada e infecção. Um menino de 7 meses morreu em 30 de julho, após três meses internado; a família relatou que o pé da criança evoluiu com necrose depois de um acesso venoso, e a certidão cita choque séptico, sepse e pneumonia. Em abril, um bebê de dois meses morreu após uma parada cardíaca: a mãe contou que dois fisioterapeutas atendiam a criança sem máscara e sem luvas quando o oxigênio caiu, e que o aparelho de reanimação não estava conectado corretamente.
Em nota, a Hapvida afirmou que os pacientes mencionados apresentavam condições clínicas distintas e de elevada gravidade e que as mortes “não podem ser atribuídas a uma mesma causa sem comprovação técnica”. A rede disse que condutas terapêuticas foram individualizadas e que avaliações feitas até agora não identificaram uma origem infecciosa comum entre os casos examinados. Segundo a empresa, mais de mil crianças foram atendidas na unidade neste ano e o hospital ainda não recebeu notificação formal sobre os procedimentos citados.
O caso também está nas mãos de órgãos de fiscalização. O Conselho Regional de Enfermagem (Coren) e o Conselho Regional de Medicina (Cremesp) abriram investigações internas para apurar possíveis irregularidades. Na inspeção, as equipes das vigilâncias avaliaram as condições das unidades neonatal e pediátrica e os protocolos de higienização e de prevenção de infecções; a documentação recolhida está em análise prioritária, segundo a Secretaria de Estado da Saúde.
A obrigação de controlar esse risco existe desde 1997. A Lei 9.431 determina que todos os hospitais do país mantenham um Programa de Controle de Infecções Hospitalares (PCIH), definido como o conjunto de ações para reduzir a incidência e a gravidade das infecções adquiridas após a internação. A lei define infecção hospitalar como qualquer infecção adquirida após a internação do paciente — a chamada infecção institucional ou nosocomial.
Parte das famílias demorou a procurar a polícia. Eduarda atribui o silêncio ao abalo emocional e diz que começou a orientar as mães depois de ser incluída em um grupo criado por uma cliente que também perdeu o filho. “Algumas ficaram muito tempo em depressão, em estados emocionais extremamente abalados. Tem umas que ainda vivem dopadas, sem condição nenhuma de tomar providência”, afirmou.
Familiares de pacientes internados na rede têm caminhos imediatos: registrar boletim de ocorrência, pela Delegacia Digital ou em uma delegacia, e levar o caso ao Ministério Público de São Paulo, que atua na área da saúde. Denúncias contra médicos e profissionais de enfermagem podem ser levadas ao Cremesp e ao Coren-SP, que já apuram o caso. A relação com os planos de saúde também pesa: é a operadora que define a rede credenciada. Na zona leste, a falta de equipamentos de saúde já foi tema de reportagem do JEP.