Quem mora na periferia e quer participar das aulas de medicina integrativa oferecidas no Bosque do Saber precisa pagar dois bilhetes de ônibus e enfrentar até 1h30 de viagem — cada sentido. O serviço é gratuito, mas não há linha direta que ligue os bairros periféricos ao parque, localizado na zona sul da cidade.
A iniciativa, promovida pela Secretaria Municipal de Saúde desde março, oferece yoga, meditação, fitoterapia e aromaterapia todas as terças e quintas, das 8h às 11h. A programação é aberta à população, mas as vagas são limitadas a 20 pessoas por dia e exigem inscrição presencial — ou seja, é preciso ir ao bosque para garantir a vaga.
Dona de casa e mãe de três filhos, Cláudia Ferreira, 38 anos, mora no Jardim das Rosas, área de periferia a 12 km do bosque. Ela conta que desistiu de participar após fazer as contas: “Gastei R$ 16 só de ônibus no dia que fui conhecer. Para quem vive de diária, isso é fora do orçamento”. O percurso exige trocar de ônibus no centro e andar mais 800 metros a pé até a entrada do parque.
A secretaria informou, por nota, que “o bosque foi escolhido por ser área de preservação ambiental e favorecer o contato com a natureza”, mas não respondeu se planeja criar pontos de ônibus extras ou linhas diretas nos dias de atendimento. O itinerário atual é o mesmo de sempre, sem adaptação para o novo serviço.
Para a auxiliar de limpeza Ana Paula Gomes, 42 anos, a distância é só parte do problema. “As aulas são de manhã, no horário que a gente está indo trabalhar. Quem tem carteira assinada não pode faltar”, diz. A maioria das vagas acaba sendo ocupada por aposentados e autônomos que têm flexibilidade de horário e dinheiro para o transporte.
Enquanto isso, postos de saúde da periferia não oferecem essas práticas. A secretaria diz que “estuda expansão para unidades básicas”, mas não há previsão de data nem lista priorizada de unidades. No fim, quem mais precisa de cuidados complementares — e tem menos dinheiro — continua sem acesso.