Um estudo da Universidade de São Paulo identificou 125 ilhas de calor na capital paulista — e 80% delas estão em bairros periféricos. As áreas mais afetadas são Brasilândia, Capão Redondo, Itaim Paulista e Cidade Tiradentes, onde o termômetro pode registrar até 5 °C acima de regiões centrais como Pinheiros ou Moema.
O fenômeno acontece quando o pavimento de asfalto e o cimento substituem o verde. Sem árvores para dar sombra e umedecer o ar, o calor se acumula durante o dia e só volta a baixar depois da meia-noite. Na prática, quem mora na periferia sente o impacto desde o deslocamento — ônibus sem ventilação — até a conta de luz: ar-condicionado ou ventilador ligado por mais horas elevam a conta em até R$ 180 por mês, segundo cálculo da própria pesquisa.
O trabalho cruzou dados de satélite com renda familiar e acesso a serviços. Resultado: onde há menos escolas, postos de saúde e parques, há mais calor. A hipótese dos cientistas é que a falça de planejamento urbano e a ocupação desordenada intensificam o problema. Em áreas verdes, a diferença chega a 7 °C no mesmo período.
Maria da Penha, 47, mãe de três filhos na Vila Ulysses, em Capão Redondo, resume o dia a dia: “Às 15h a parede do meu barraco tá quente de verdade. As crianças não conseguem estudar, fica todo mundo irritado”. Ela montou um sistema caseiro — garrafas PET congeladas em cima do ventilador — para tentar aliviar, mas o aparelho vira 18h por dia. “O relógio voa”, reclama.
A prefeitura informou que está elaborando o Plano Municipal de Arborização, prometido para 2025, e que prevê 100 mil novas árvores até 2026. A Secretaria de Infraestrutura Urbana diz que prioriza canteiros em avenidas de maior fluxo, mas não detalhou cronogramo nem investimento para as periferias identificadas como mais quentes.
Para o pesquisador Diego Martins, coordenador do estudo, a solução passa por políticas cruzadas: “Precisa de arborização, mas também de regularização fundiária, habitação mais qualificada e transporte decente. Calor não é só clima; é desigualdade”. Enquanto isso não chega, moradores improvisam: toalha molhada no corpo, gelo no cachorro e janela aberta torcendo para o vento entrar.