Estudantes da Etec Sapopemba, no extremo leste de São Paulo, trocam a teoria da sala de aula por microfone e câmera para tirar a fome da porta de casa. Eles produzem programas de rádio e vídeos curtos que ensinam a montar um prato nutritivo com menos de 5 reais usando alimentos vendidos nas feiras da região.
A ideia nasceu dentro da disciplina de educomunicação, que mistura educação e comunicação. O professor responsável, Claudemir Viana, propôs que os jovens criassem campanhas reais sobre segurança alimentar. O resultado foi o projeto “Comida de Verdade na Periferia”, que já soma 40 programas de rádio e 25 vídeos no TikTok e no Instagram.
Cada turma escolhe um tema: feijão comum virou o centro de uma série sobre proteína vegetal barata; a folha da beterraba, normalmente jogada fora, virou receita de torta salgada. Tudo testado primeiro na cozinha experimental da escola e depois repassado em linguagem de quem vive cotidiano apertado. “A gente não fala em kcal, fala em colher de arroz e pires cheio”, conta a aluna Ana Paula, 17, moradora do Jardim Lopes.
O impacto chegou aos pais. Dona Maria, 48, ouvia o programa na rádio comunitária e começou a trocar o sódio em excesso por ervas do quintal. Em três meses, a pressão dela caiu e o remédio passou a ser tomado em dias alternados, sob orientação médica. A escola estimula que cada aluno leve a dica para pelo menos três famílias. Com 600 alunos envoltos, já são quase 2 mil domicílios alcançados.
O projeto ganhou força quando a diretora da escola, Luciana Ferreira, viu a possibilidade de incluir o conteúdo nas aulas de ciências e de português. Agora, o trabalho final vale nota e ainda abre vaga para estágio na rádio local. A escola busca parceria com feiras livres para distribuir cartões com as receitas impressas, ampliando o alcance a quem não tem internet.