Paraisópolis, São Paulo terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
✍️ OPINIÃO Este é um artigo de opinião. As ideias expressas são de responsabilidade do autor.

A importância do treinamento

🎤 Convidado
💚 Colaborador Voluntário

Judith Brito

É mãe, avó e executiva do Grupo Folha e do Grupo UOL.

📅 28 jan 2026 ⏱️ 5 min de leitura

Dia desses, caminhando por uma rua de pouco fluxo em São Paulo, a caminho do trabalho, fui abordada por um rapaz bem-apessoado e bem-vestido. Educadamente, disse-me que procurava um endereço e perguntou se eu o conhecia. Respondi que não, mas sugeri que o buscasse na internet. Ele respondeu que não usava celular — achava perigoso. Então usei o meu aparelho para consultar a rua, que ficava num bairro distante daquele em que estávamos. Detalhe: antes de tirar o celular da bolsa, concordei que era mesmo perigoso fazê-lo e disse que contava com ele para me defender. Ele assentiu: “Fique tranquila!”

Nesse momento passou pelo local outro rapaz, alto e também bem-vestido. O primeiro repetiu a pergunta sobre o endereço. O segundo também não conhecia a tal rua. Outro detalhe: o primeiro falava um caipirês carregado. Disse ser da zona rural do interior de São Paulo, e estar procurando o endereço para entregar um bilhete de loteria a um conhecido que lhe prometera, em troca, uma máquina de lavar. O moço alto pediu o bilhete, consultou na internet os cinco números e disse que, de fato, batiam — fez questão de me mostrar. Ou seja: o tal caipira estava “perdido na capital” com um bilhete que lhe renderia mais de R$ 9 milhões!

Sugeri ao “milionário” ir a uma agência da Caixa Econômica Federal ali perto; lá conseguiria se informar sobre o que fazer. Disse ao caipira que poderia levá-lo até a porta da agência, pois era meu caminho. O moço alto achava melhor procurar uma lotérica e, para proteger o caipira — tão inocente —, sugeriu que eu acompanhasse os dois. Respondi que não seria possível, em razão de um compromisso no trabalho. Os dois foram embora juntos.

Achei tudo muito estranho e fui refletindo pelo restante do caminho. Aquele sotaque caipira era mais fake que nota de três reais. Sou caipira autêntica, falo bem esse dialeto. E toda a história era, no mínimo, esquisita. Chegando ao trabalho, contei o episódio a um colega, que esclareceu: “Esse é um golpe antigo. As pessoas se oferecem para comprar um bilhete premiado em milhões por um valor bem menor — mas ainda assim conveniente para os golpistas”.

Refleti: aquela dupla ainda precisava de muito treinamento. Primeiro, o tal caipira, além de falar de forma caricatural, estava vestido como um Farialaimer. Segundo, o enredo que prepararam era confuso, sem pé nem cabeça. Terceiro, a interpretação era de autênticos canastrões. Se eu voltar a encontrar a dupla, vou aconselhá-los a procurar uma escola de artes para aprenderem a construir bons roteiros, a escolherem melhor o figurino e a apurarem a performance como atores — incluindo o sotaque. Em tempo: mesmo uma atuação melhor não resolveria, no meu caso: eu jamais enganaria alguém — ainda mais um simplório — comprando um bilhete valioso por uma pechincha. Mas talvez fossem mais convincentes para os gananciosos (e sem ética).

Em situações anteriores, também evitei o pior por analisar as atuações. Numa delas, quando meu filho mais novo ainda era adolescente, recebi a ligação de alguém que gritava desesperadamente pela mãe, dizendo-se sequestrado por bandidos que exigiam resgate. Assustei-me, claro. Mas em poucos segundos pensei: meu filho não faria aquele escândalo, nem mesmo sob pressão. Perguntei então: “Filho, qual é o seu nome?” Foi o que bastou para a ligação ser interrompida. Liguei para casa e ele estava lá, tranquilo.

Também já recebi mensagens pelo WhatsApp de alguém se passando por filho e pedindo dinheiro, justificando ter trocado o número do telefone. Simplesmente bloqueei (obviamente sabia não ser nenhum dos meus filhos), mas confesso que minha vontade era de responder: “Enquanto não aprender a escrever direito, sem tantos erros, não tem dinheiro!” Seria, quem sabe, um estímulo ao aprendizado do português correto.

Mas a situação mais engraçada em que me livrei de ser roubada foi a seguinte: eu caminhava sozinha pela calçada que margeia o prédio onde trabalho quando uma moto estacionou quase à minha frente. O motoqueiro levantou o capacete e anunciou: “Moça, vou roubar você!” Eu devia estar com a autoestima elevada naquele dia, porque ouvi a frase como se fosse romântica — uma declaração de amor em voz doce (algo como: vou roubar seu coração). Confesso que até senti certa satisfação, mas como não sou dessas, continuei a andar a passos firmes, até entrar no prédio. Só quando cheguei à minha mesa de trabalho caiu a ficha: o cara pretendia me roubar de verdade, talvez a carteira ou o celular! Não havia nada de romântico ali. Contei o episódio aos meus filhos e eles, depois de gargalharem muito, concluíram: “Mãe, você acabou com a carreira do meliante! Deve ser duro anunciar um assalto e a vítima não dar a menor atenção”.

De novo, minha recomendação é que ele estude melhor a própria “profissão” e capriche mais na atuação. Não dá para anunciar um assalto com voz romântica. Ou, então, que escolha uma vítima menos atrapalhada…

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Este artigo foi escrito por um colaborador voluntário

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