Paraisópolis, São Paulo sábado, 28 de fevereiro de 2026
Direito Humanos

68% das mulheres da periferia dizem que violência dentro de casa é o maior medo

A violência doméstica, tendo o feminicídio como consequência mais extrema, é apontada como o principal desafio da vida nas periferias por 68% das mulheres que vivem em favelas e bairros populares de São Paulo, segundo estudo da plataforma Sonhos da Favela em parceria com o Data Favela. Esse dado coloca a violência dentro de casa acima de preocupações como desemprego, falta de renda, saúde e moradia, evidenciando que, para muitas, o lugar de maior risco continua sendo o próprio lar.

A pesquisa, de alcance nacional, ouviu mulheres de diferentes regiões do país e mostrou que a percepção de insegurança doméstica é ainda mais acentuada entre mulheres negras, moradoras de periferias urbanas. Elas relatam agressões físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais, quase sempre praticadas por parceiros ou ex-parceiros, o que reforça diagnósticos de que a violência de gênero está profundamente enraizada em relações desiguais de poder.

O levantamento dialoga com dados oficiais que indicam que a maioria dos feminicídios ocorre dentro de casa e tem como vítima principal mulheres negras e pobres. Em São Paulo, por exemplo, cerca de 68% das mulheres mortas por feminicídio foram assassinadas no ambiente doméstico, o que mostra como a casa, que deveria ser espaço de proteção, se converte num território de medo e controle.

Para além dos números, o estudo evidencia como raça, classe e território se combinam para aumentar a vulnerabilidade. Moradoras de periferias enfrentam não só a violência direta, mas também a dificuldade de acessar serviços públicos de proteção, como delegacias especializadas, abrigos e atendimento psicológico, muitas vezes distantes ou precarizados em seus bairros.

Ao mesmo tempo, coletivos de mulheres periféricas têm organizado respostas próprias, construindo redes de apoio, campanhas de conscientização, rodas de conversa e observatórios populares da violência. Essas iniciativas pautam o feminicídio e a violência doméstica como problema político e estrutural, cobrando do poder público políticas de enfrentamento que incluam geração de renda, moradia digna, creches e fortalecimento da rede de acolhimento.

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Redação Espaço do Povo
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Comunicador e colaborador do jornal Espaço do Povo, onde desde 2007 narra o cotidiano e as potências das favelas brasileiras.

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